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MÃOS
Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sempre são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.
Eugénio de ANDRADE
(1923-2005)
OS DIAS.
Dias como mendigos procurando
por uma terra vã espigas de nada:
que rosas de miséria colheremos?
que esmolas de luar no pó da estrada?
Fechando as mãos não colho mais que a imagem
da tua sombra, meu amor de trigo:
a bruma desses rios que em segredo
nascem em mim para morrer comigo.
Rios de luz concreta, proibida,
de que meus versos são a simples névoa;
ah, pudesse eu cantar; a vida levo-a
sem te ver bem a esta luz perdida.
Ó doce prisioneira do crepúsculo,
quando virá teu rosto de harmonia
como o fulgor de um astro debruçar-se
na terra dos meus pés, áspera e fria?
Carlos de OLIVEIRA
(1921-1981)
In "Terra de Harmonia"
TERRA DE NINGUÉM
Todos têm para mim o desprezo dos fortes,
todos têm para mim
o desprezo
dos que encontram na vida um caminho
- que muitas vezes não encontraram
mas julgaram encontrar.
Caminho
que pode ser o seu
mas é um caminho...
Eu
continuarei a perder-me nos horizontes largos,
a andar às cegas entre o mal e o bem...
que a minha terra
é Terra de Ninguém.
João José Cochofel
(1919-1982)
AFINAL A VIDA.
Afinal a vida
é este roer de cardos velhos,
é este deitar-se na palha podre,
é este andar aos tombos pelas ruas:
ver os outros a rir e a chorar
- e chorar também
para que os outros riam,
e rir também
para que os outros chorem.
A vida é isto,
e não o que eu sonhei.
Raios partam a vida
tal como ela é.
João José Cochofel
(1919-1982)
LASSO, TRISTE, VENHO
Lasso, triste, venho
do silêncio em mim.
Que escuro o caminho!
Que longe do fim!
Indeciso ainda
como um cristal baço;
mas que fome existe
já no meu cansaço!
Olho-me por dentro:
que frio, sozinho!
Aqueço-me ao fogo
do comum destino.
João José Cochofel
(1919-1982)
In "Os Dias Íntimos"
QUE SENSIBILIDADE.
Que sensibilidade me sobe
da passada adolescência?
Que agudeza dos sentidos
me perturba a consciência?
Surge do desencanto
um mundo a que me abandono.
Tranquilo e caricioso
como um sol de Outono.
A cor, a luz, as formas,
sinto-as de coração novo!
Em tudo desconheço
uma experiência que renovo.
Como quem sai
duma longa doença,
deslumbrado e comovido
pela convalescença.
João José Cochofel
(1919-1982)
In "Os Dias Íntimos"
FAZE QUE A TUA VIDA SEJA O QUE TE NEGA.
Faze que a tua vida seja o que te nega.
A luta é tua: fá-la.
Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.
Ergue com o vigor do teu pulso;
solda-o em aço.
E da tua obra afirma.
– Sou o que faço.
João José Cochofel
(1919-1982)