domingo, 2 de março de 2014

MÃOS

Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sempre são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.

Eugénio de ANDRADE
(1923-2005)
OS DIAS.

Dias como mendigos procurando
por uma terra vã espigas de nada:
que rosas de miséria colheremos?
que esmolas de luar no pó da estrada?

Fechando as mãos não colho mais que a imagem
da tua sombra, meu amor de trigo:
a bruma desses rios que em segredo
nascem em mim para morrer comigo.

Rios de luz concreta, proibida,
de que meus versos são a simples névoa;
ah, pudesse eu cantar; a vida levo-a
sem te ver bem a esta luz perdida.

Ó doce prisioneira do crepúsculo,
quando virá teu rosto de harmonia
como o fulgor de um astro debruçar-se
na terra dos meus pés, áspera e fria?

Carlos de OLIVEIRA
(1921-1981)
In "Terra de Harmonia"

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

TERRA DE NINGUÉM

Todos têm para mim o desprezo dos fortes,
todos têm para mim
o desprezo
dos que encontram na vida um caminho
- que muitas vezes não encontraram
mas julgaram encontrar.

Caminho
que pode ser o seu
mas é um caminho...

Eu
continuarei a perder-me nos horizontes largos,
a andar às cegas entre o mal e o bem...

que a minha terra
é Terra de Ninguém.

João José Cochofel
(1919-1982)
AFINAL A VIDA.

Afinal a vida
é este roer de cardos velhos,
é este deitar-se na palha podre,
é este andar aos tombos pelas ruas:
ver os outros a rir e a chorar
- e chorar também
para que os outros riam,
e rir também
para que os outros chorem.
A vida é isto,
e não o que eu sonhei.

Raios partam a vida
tal como ela é.

João José Cochofel
(1919-1982)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

LASSO, TRISTE, VENHO

Lasso, triste, venho
do silêncio em mim.
Que escuro o caminho!
Que longe do fim!

Indeciso ainda
como um cristal baço;
mas que fome existe
já no meu cansaço!

Olho-me por dentro:
que frio, sozinho!
Aqueço-me ao fogo
do comum destino.

João José Cochofel
(1919-1982)
In "Os Dias Íntimos"
QUE SENSIBILIDADE.

Que sensibilidade me sobe
da passada adolescência?
Que agudeza dos sentidos
me perturba a consciência?

Surge do desencanto
um mundo a que me abandono.
Tranquilo e caricioso
como um sol de Outono.

A cor, a luz, as formas,
sinto-as de coração novo!
Em tudo desconheço
uma experiência que renovo.

Como quem sai
duma longa doença,
deslumbrado e comovido
pela convalescença.

João José Cochofel
(1919-1982)
In "Os Dias Íntimos"
FAZE QUE A TUA VIDA SEJA O QUE TE NEGA.

Faze que a tua vida seja o que te nega.
A luta é tua: fá-la.
Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.

Ergue com o vigor do teu pulso;
solda-o em aço.
E da tua obra afirma.
– Sou o que faço.

João José Cochofel
(1919-1982)