segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A MINHA VIDA É...

A minha vida é como um certo corredor sombrio
de tecto baixo e lúgubre dos lados
com inúmeras portas mas fechadas
e só lá muito ao fundo se divisa
se é que se divisa uma janela
que nos promete árvores e relva
e um mundo de verdura que perdi

Ruy Belo
(1933-1978)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

TALVEZ.

Talvez digas um dia o que me queres,
Talvez não queiras afinal dizê-lo,
Talvez passes a mão no meu cabelo,
Talvez eu pense em ti talvez me esperes.

Talvez, sendo isto assim, fosse melhor
Falhar-se o nosso encontro por um triz
Talvez não me afagasses como eu quis,
Talvez não nos soubéssemos de cor.

Mas não sei bem, respostas não mas dês.
Vivo só de murmúrios repetidos,
De enganos de alma e fome dos sentidos,
Talvez seja cruel, talvez, talvez.

Se nada dás, porém, nada te dou
Neste vaivém que sempre nos sustenta,
E se a própria saudade nos inventa,
Não sei talvez quem és mas sei quem sou.

Vasco GRAÇA MOURA

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

BEM SEI QUE ESTOU ENDOIDECENDO

Bem sei que estou endoidecendo.
Bem sei que falha em mim quem sou.
Sim, mas, enquanto me não rendo,
Quero saber por onde vou.

Inda que vá para render-me
Ao que o Destino me faz ser,
Quero, um momento, aqui deter-me
E descansar a conhecer.

Há grandes lapsos de memória
Grandes paralelas perdidas,
E muita lenda e muita história
E muitas vidas, muitas vidas.

Tudo isso; agora me perco
De mim e vou a transviar,
Quero chamar a mim, e cerco
Meu ser de tudo relembrar.

Porque, se vou ser louco, quero
Ser louco com moral e siso.
Vou tanger lira como Nero.
Mas o incêndio não é preciso.

Fernando PESSOA
(1888-1935)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

SEI QUE O ÚNICO CANTO

Sei que o único canto,
o único digno dos cantos antigos,
a única poesia,
é a que cala e ainda ama este mundo,
esta solidão que enlouquece e despoja.

Antonio Gamoneda
In "Oração Fria"
Trad. de João Moita

domingo, 2 de fevereiro de 2014

ULISSES

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

FERNANDO PESSOA
(1888-1935)
In "Mensagem"
VERDADE.

Nas tuas mãos autênticas, tamanhas
Que nelas cabe o mundo! ainda acredito
Que sejam altas, firmes, as montanhas
E puras as nascentes de granito.

O mais só nos enterra e só nos mente.
Que importa o azul do céu e o azul das águas?
O que eu procuro é gente
Que sinta o meu amor e as minhas mágoas!

Pedro Homem de Mello
(1904-1984)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

JÁ NÃO ME IMPORTO.

Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.

Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei

Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,

Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,

Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz

Fernando PESSOA
(1888-1935)