sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

 QUERO SER TEU AMOR AMIGO


Quero ser o teu amor amigo
 Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...

Fernando Pessoa
(1888-1935)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

ADÁGIO

Tão curta a vida e tão comprido o tempo!...
Feliz quem o não sente.
Quem respira tão fundo
O ar do mundo,
Que vive em cada instante eternamente.

Miguel Torga
(12/8/1907 - 17/1/1995)
(Coimbra,21 de Fevereiro de 1983)
"EM PORTUGAL NÂO HÁ PENA DE MORTE, HÁ PENA DE VIDA."

Esta legenda, figurava ao lado de outras, igualmente amargas, num cortejo académico que atravessou hoje as ruas da cidade, testemunha bem, o desespero a que chegou a juventude.
Até aqui, eram apenas os velhos a gemer, no desalento de quem sabe que não pode ter mais razões de esperança. Agora é também a mocidade que se lamenta, no desalento dobrado de quem sabe que as podia ter e não tem.

MIGUEL TORGA
(1907-1995)
Coimbra, 22 de Novembro de 1961
in "Diário IX"
FALARAM-ME EM HOMENS, EM HUMANIDADE.

Falaram-me em homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

Alberto Caeiro / Fernando PESSOA
(1888-1935)


AMIZADE.

De mais ninguém,se não de ti,preciso:
Do teu sereno olhar,do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar:-«Espera e confia!»
E sentir converter-se em harmonia,
O que era,dantes,confusão e assombro.

Carlos Queirós
(1907-1949)