segunda-feira, 6 de janeiro de 2014



AMIZADE.

De mais ninguém,se não de ti,preciso:
Do teu sereno olhar,do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar:-«Espera e confia!»
E sentir converter-se em harmonia,
O que era,dantes,confusão e assombro.

Carlos Queirós
(1907-1949)
CHUVA

Chuva, caindo tão mansa,
Na paisagem do momento,
Trazes mais esta lembrança
De profundo isolamento.

Chuva, caindo em silêncio
Na tarde, sem claridade...
A meu sonhar d'hoje, vence-o
Uma infinita saudade.

Chuva, caindo tão mansa,
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
— Que perfeita intimidade!...

Francisco Bugalho
(1905-1949)
in "Paisagem"


RUBOR.

Não quero eterna juventude, queria
a velhice curar como se curam
de inverno as árvores, assim como
o cenho enrugado das montanhas
recobra seu verdor na primavera.

Contar por vidas e esquecer os anos,
sofrer as aparências sarmentosas
com coração feliz, pois sua rega
devolverá o colorido e a tepidez
à infância que à flor da pele nos brote.
Rubor, que não verdor, nas ramarias
e numa fé cega no poder de uma alma
com raízes fundíssimas na terra.

Manuel Altolaguirre
(1905-1959)
Trad. de José Bento