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CHUVA
Chuva, caindo tão mansa,
Na paisagem do momento,
Trazes mais esta lembrança
De profundo isolamento.
Chuva, caindo em silêncio
Na tarde, sem claridade...
A meu sonhar d'hoje, vence-o
Uma infinita saudade.
Chuva, caindo tão mansa,
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
— Que perfeita intimidade!...
Francisco Bugalho
(1905-1949)
in "Paisagem"
RUBOR.
Não quero eterna juventude, queria
a velhice curar como se curam
de inverno as árvores, assim como
o cenho enrugado das montanhas
recobra seu verdor na primavera.
Contar por vidas e esquecer os anos,
sofrer as aparências sarmentosas
com coração feliz, pois sua rega
devolverá o colorido e a tepidez
à infância que à flor da pele nos brote.
Rubor, que não verdor, nas ramarias
e numa fé cega no poder de uma alma
com raízes fundíssimas na terra.
Manuel Altolaguirre
(1905-1959)
Trad. de José Bento
A VELHICE PEDE DESCULPA
Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.
Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.
Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.
Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.
Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.
Cecília Meireles
(1901-1964)
In "Poemas"
(1958
COM SAL E SOL, EU ESCREVO
Escrevo no meio de tantas derrocadas,
tantas ruínas, tanto desespero,
mas também tanta esperança renovada,
tantos jovens que, no meio do desencanto,
mantêm a pureza das cascatas,
tantas crianças que são a primavera
que chegará um dia e ficará
no coração da terra, quantas vezes
mutilada, humilhada por aqueles
que trazem a ganância no seu sangue.
Com sol e sal eu escrevo.
E todos juntos vamos transformar,
com tudo o que nós temos de coragem,
este mundo idiota
que envia flores aos mortos
e atira pedradas aos vivos.
Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Com Sol e Sal, Eu Escrevo"
DENTRO DA NOITE QUE ME COBRE.
" Dentro da noite que me cobre,
Negra, escura como breu,
Eu agradeço aos Deuses que possam existir,
pela minha Alma inconquistável,
Mesmo nas cruéis garras da circunstância,
Eu não tremo nem desespero,
sob os duros golpes da sorte,
a minha cabeça sangra, mas não se curva,
para além deste lugar de raiva e choro,
que me segura do horror da sombra,
e ameaça com Tempo, que me irá encontrar,
vai-me achar, mas destemido,
Não importa se o portão é estreito,
não importa o tamanho do castigo,
Eu sou dono do meu Destino.
Eu sou o Capitão da minha Alma."
William Ernest Henley
(1849 - 1903)