segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A VELHICE PEDE DESCULPA

Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.

Cecília Meireles
(1901-1964)
In "Poemas"
(1958

COM SAL E SOL, EU ESCREVO

Escrevo no meio de tantas derrocadas,
tantas ruínas, tanto desespero,
mas também tanta esperança renovada,
tantos jovens que, no meio do desencanto,
mantêm a pureza das cascatas,
tantas crianças que são a primavera
que chegará um dia e ficará
no coração da terra, quantas vezes
mutilada, humilhada por aqueles
que trazem a ganância no seu sangue.
Com sol e sal eu escrevo.
E todos juntos vamos transformar,
com tudo o que nós temos de coragem,
este mundo idiota
que envia flores aos mortos
e atira pedradas aos vivos.

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Com Sol e Sal, Eu Escrevo"
DENTRO DA NOITE QUE ME COBRE.

" Dentro da noite que me cobre,
Negra, escura como breu,
Eu agradeço aos Deuses que possam existir,
pela minha Alma inconquistável,

Mesmo nas cruéis garras da circunstância,
Eu não tremo nem desespero,
sob os duros golpes da sorte,
a minha cabeça sangra, mas não se curva,

para além deste lugar de raiva e choro,
que me segura do horror da sombra,
e ameaça com Tempo, que me irá encontrar,
vai-me achar, mas destemido,

Não importa se o portão é estreito,
não importa o tamanho do castigo,
Eu sou dono do meu Destino.
Eu sou o Capitão da minha Alma."

William Ernest Henley
(1849 - 1903)

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

REGRESSO ETERNO


Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,                             
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma ideia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência de um corpo em cuja essência
A terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita.

A noite! Se fosse a noite...
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentidos
À esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzem reflectidos sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia.

Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em baías de precário sonho...
Tudo é possível porque a vida dura
E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.




Ruy Cinatti
(1915-1986)

   In «O Livro do Nómada Meu Amigo» (Guimarães Editores, 1981
RETRATO.

Tens nos olhos a luz que me faltava.
Agora posso ver o que não via:
O rosto da alegria
No teu rosto.
Vinho ainda a sonhar
Na fervura do mosto,
Não sabes duvidar
Das ilusões.
És a vida que esperas...
Em ti, as estações
São todas primaveras.

Miguel Torga
(1907-1995)
POVO

É sempre a mesma história repetida.
É sempre o mesmo lodo, a mesma fome
É sempre a mesma vida mal vivida
De quem amassa o pão mas não o come.

É sempre a mesma angústia desgrenhada
De quem naufraga em terra olhando o oceano;
O rubro desespero, a mão crispada,
O sonho a desfolhar-se… e o desengano.

É sempre este horizonte de fuligem,
É sempre este arranhar em duro chão,
Com fúria até ao centro da vertigem
Em busca da raiz da salvação.

Aguinaldo Fonseca
In “Boletim Mensagem”, Ano III, nº 1, Janeiro de 1960

sábado, 5 de outubro de 2013

 EPÍGRAFE.
 
 
  Murmúrio de água na clepsidra gotejante, 
 Lentas gotas de som no relógio da torre, 
Fio de areia na ampulheta vigilante, 
Leve sombra azulando a pedra do quadrante, 
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre... 

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida, 
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça? 
Procuremos somente a Beleza, que a vida 
É um punhado infantil de areia ressequida, 
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...
 
 
Eugénio de Castro
(1869-1944)