sábado, 5 de outubro de 2013

AS ÁRVORES ESTAVAM QUIETAS.

o céu era cinzento,
as colinas estranhamente
jaziam sem alento.

Os homens faziam algo,
pondo a terra de avessa,
como quem cava um tesouro,
mas calmos e sem pressa.

Tudo era decerto assim
no resto do planeta,
o mundo e a humana flora
têm uma liga secreta.

Isso andava eu a observar
com receio mas contente,
e os meus pés sempre a andar
por baixo, como boa gente.


Herman Gorter
(1864-1927)
Trad. de Fernando Venâncio.





 A DENSIDADE DO QUE NÃO É.


  A densidade do que não é,
a força do que não se tem,
amontoa a água da vida
e cria um rumor de fundo
para todos os gestos.

   Até o tecido preto da morte
 tem um pálido fio
onde a trama cede e se aligeira
porque lhe falta morte.

   E até o que nunca viveu
e nunca morrerá
ergue-se na greta de uma ausência
que lhe empresta seu corpo.

   A pedra do não ser,
a certeira condição negativa,
a pressão do nada,
é o último apoio que nos resta.

Roberto Juarroz
(1925-1995)
Trad. de José Bento.

domingo, 22 de setembro de 2013

 PUDESSE O QUE PENSO.



Pudesse o que penso exprimir e dizer
Cada pensamento oculto e silente,
Levar meu sentir moldado na mente
A ser natural perante o viver;

Pudesse a alma verter, confessar
Os segredos íntimos em meu ser;
Grande eu seria, mas não pude aprender
Uma língua bem, que expresse o pesar.

Assim, dia e noite novo sussurar

E noite e dia sussurros que vão...
Oh! A palavra ou frase em que atirar

O que penso e sinto, acordando então
O mundo; mas, mudo, não sei cantar,
Mudo como as nuvens antes do trovão.


Fernando Pessoa
(1888-1935)

sábado, 21 de setembro de 2013

LÁGRIMA
 
 
Dos olhos me cais,
redonda formosura.
Quase fruto ou lua,
cais desamparada.
Regressas à água
mais pura do dia,
obscuro alimento
de altas açucenas.
Breve arquitectura
da melancolia.
Lágrima, apenas.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)





 ESTA MANHÃ.




Esta manhã viu-se tão bela no

seu próprio espelho que veio
urgente descerrar-me a janela
e a todos os pássaros do mundo.

Alexandre Pinheiro Torres
(1923-1999)

 O QUE HOJE APRENDI PARA DIZER-ME.

 

O que hoje aprendi para dizer-me
talvez não caiba no jeito do verso
não cabe, por minha falta
mas eu aprendi.

Desde hoje serei mais eu
estarei mais onde estiver

José de Almada Negreiros
(1893-1970)
LAMENTO

Pátria sem rumo, minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta, adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?


Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia….
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!.....
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente…

Miguel Torga
(1907-1995)