sexta-feira, 20 de setembro de 2013


É DIFÍCIL NA VIDA ACHAR ALGUÉM.

É difícil na vida achar alguém
Que seja na verdade um grande amigo,
E se assim penso – e com tristeza o digo,
É porque o sei, talvez, como ninguém.

Se a amizade é um bem – e se esse bem
Traz o conforto de um divino abrigo,
Por mim, direi, que nunca mais consigo
Iludir-me nas graças que ele tem.

Afectos, sacrifícios, lealdade!,
Tudo se apaga ou fica na memória
Se a ilusão dá lugar à realidade.

E ai daqueles que pensam na excepção:
Acabam por ficar dentro da história
De que a vida é um sonho e uma traição.

António Botto
(1897 - 1959)

domingo, 8 de setembro de 2013



CANTAS: E A VIDA FICA SUSPENSA.
 


Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu. 



Eugénio de Andrade
(1923-2005)
SORRISO AUDÍVEL DAS FOLHAS


 Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?

 

Fernando Pessoa
(1888-1935)
PROCLAMAÇÃO


A natureza não desce
a contratos. Nem a vida
se mede pela razão.

A vida é toda mistério.

Quem largamente se deu
não ofendeu a justiça
mas viveu do coração.




Ruy Cinatti
(1915-1986)



 DISPONIBILIDADE


Vem ver a vida
passar silenciosamente
como a ave no ar claro.

Vê-a que desce. Prende-a.
Nas tuas mãos em concha
fica um instante.

Deixa-a fugir. Outras há.

Ruy Cinatti
(1915-1986)

sábado, 7 de setembro de 2013

 CANÇÃO


As coisas que desejamos
tarde ou nunca as recebemos,
e as que menos queremos,
mais depressa as alcançamos.
 
   Porque a Fortuna desvia
aquilo que nos apraz,
mas o que pesar nos faz
ela mesmo pra nós guia.
E pelo que mais penamos
alcançar não o podemos,
e o que menos queremos
muito depressa alcançamos.

Juan del Encina
  (1468-1529)
(Trad. de José Bento)



 POESIA FÁCIL


Paz não procuro, guerra não suporto,
Tranquilo e só vou pelo mundo, e cheio
De cantos sufocados. Como anseio
Silentes névoas de um imenso porto!

Um porto a transbordar de velas leves
Quase a partir pelo horizonte azul
Em doce ondulação, enquanto exul
Perpassa o vento em seus acordes breves.

Acordes tais que o vento em si transporta
Longínquos sobre o mar desconhecido.
Eu sonho. A vida é triste. Estou sozinho.

Oh quando, quando a ardente madrugada
Em que a minha alma acordará no sol,
No eterno sol, fremente e libertada!

 
Dino Campana
 (1885-1932)
(Trad. de Jorge de Sena)