domingo, 8 de setembro de 2013



CANTAS: E A VIDA FICA SUSPENSA.
 


Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu. 



Eugénio de Andrade
(1923-2005)
SORRISO AUDÍVEL DAS FOLHAS


 Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?

 

Fernando Pessoa
(1888-1935)
PROCLAMAÇÃO


A natureza não desce
a contratos. Nem a vida
se mede pela razão.

A vida é toda mistério.

Quem largamente se deu
não ofendeu a justiça
mas viveu do coração.




Ruy Cinatti
(1915-1986)



 DISPONIBILIDADE


Vem ver a vida
passar silenciosamente
como a ave no ar claro.

Vê-a que desce. Prende-a.
Nas tuas mãos em concha
fica um instante.

Deixa-a fugir. Outras há.

Ruy Cinatti
(1915-1986)

sábado, 7 de setembro de 2013

 CANÇÃO


As coisas que desejamos
tarde ou nunca as recebemos,
e as que menos queremos,
mais depressa as alcançamos.
 
   Porque a Fortuna desvia
aquilo que nos apraz,
mas o que pesar nos faz
ela mesmo pra nós guia.
E pelo que mais penamos
alcançar não o podemos,
e o que menos queremos
muito depressa alcançamos.

Juan del Encina
  (1468-1529)
(Trad. de José Bento)



 POESIA FÁCIL


Paz não procuro, guerra não suporto,
Tranquilo e só vou pelo mundo, e cheio
De cantos sufocados. Como anseio
Silentes névoas de um imenso porto!

Um porto a transbordar de velas leves
Quase a partir pelo horizonte azul
Em doce ondulação, enquanto exul
Perpassa o vento em seus acordes breves.

Acordes tais que o vento em si transporta
Longínquos sobre o mar desconhecido.
Eu sonho. A vida é triste. Estou sozinho.

Oh quando, quando a ardente madrugada
Em que a minha alma acordará no sol,
No eterno sol, fremente e libertada!

 
Dino Campana
 (1885-1932)
(Trad. de Jorge de Sena)
VIGÍLIA

Aqui estou eu sentado
ao lado de mim mesmo
para que nunca seja
aquele que não sou.

Não que eu seja muito
mas quero ser inteiro
porque faço parte
de um todo maior.

Eu pertenço a um povo,
povo que pertence
a todos os povos
mesmo que não saiba.

E todos os povos
respondem de cada
criança que nasce
sem o ter pedido.

De cada criança
eu sou responsável.
Nós todos o somos
se acaso nascemos.

Só nasce quem sabe
nascer de si mesmo
- quem não renasceu
que se vá embora.

Sidónio Muralha
(1920-1982)