sábado, 7 de setembro de 2013

 CANÇÃO


As coisas que desejamos
tarde ou nunca as recebemos,
e as que menos queremos,
mais depressa as alcançamos.
 
   Porque a Fortuna desvia
aquilo que nos apraz,
mas o que pesar nos faz
ela mesmo pra nós guia.
E pelo que mais penamos
alcançar não o podemos,
e o que menos queremos
muito depressa alcançamos.

Juan del Encina
  (1468-1529)
(Trad. de José Bento)



 POESIA FÁCIL


Paz não procuro, guerra não suporto,
Tranquilo e só vou pelo mundo, e cheio
De cantos sufocados. Como anseio
Silentes névoas de um imenso porto!

Um porto a transbordar de velas leves
Quase a partir pelo horizonte azul
Em doce ondulação, enquanto exul
Perpassa o vento em seus acordes breves.

Acordes tais que o vento em si transporta
Longínquos sobre o mar desconhecido.
Eu sonho. A vida é triste. Estou sozinho.

Oh quando, quando a ardente madrugada
Em que a minha alma acordará no sol,
No eterno sol, fremente e libertada!

 
Dino Campana
 (1885-1932)
(Trad. de Jorge de Sena)
VIGÍLIA

Aqui estou eu sentado
ao lado de mim mesmo
para que nunca seja
aquele que não sou.

Não que eu seja muito
mas quero ser inteiro
porque faço parte
de um todo maior.

Eu pertenço a um povo,
povo que pertence
a todos os povos
mesmo que não saiba.

E todos os povos
respondem de cada
criança que nasce
sem o ter pedido.

De cada criança
eu sou responsável.
Nós todos o somos
se acaso nascemos.

Só nasce quem sabe
nascer de si mesmo
- quem não renasceu
que se vá embora.

Sidónio Muralha
(1920-1982)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

 COMUNICADO


Falta um combate ainda, o decisivo.
Ganhei quantos perdi, porque resisto.
Mesmo cansado e mutilado, existo,
Num vitalismo cósmico ostensivo.

Filho da Terra, minha mãe amada,
É ela que levanta o lutador caído.
Anteu anão,
Toco-lhe o coração,
E ergo-me do chão
Fortalecido.

Mas há fúrias hercúleas contra mim:
O tempo, a morte, e o próprio desencanto
De viver...
Pode, porém, ainda acontecer
Que, mesmo nessa hora, a consciência
Negue, de frente, a própria violência
Que me vencer...


Miguel Torga
(1907-1995)

domingo, 14 de julho de 2013


 FLOR DA LIBERDADE


Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós… Também nós… E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.

Sepultos insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos
O terrível poder de recusar!
E essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.

Miguel Torga
(1907-1995)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

 CARTA

Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesma envelhecí: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias


(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a tua menina, que a sol-posta
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes é tanta
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

E quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.


Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)
 AVE DA ESPERANÇA


Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
Aquece as alegrias do futuro,
O tempo que há-de vir sem este muro
De silêncio e negrura
A cercá-lo de medo e de espessura
Maciça e tumular;
O tempo que há-de vir - esse desejo
Com asas, primavera e liberdade;
Tempo que ninguém há-de
Corromper
Com palavras de amor, que são a morte
Antes de se morrer. 


Miguel Torga
(1907-1995)