domingo, 9 de junho de 2013

 HAJA TEMERIDADE


Sobre a ponte insegura é que é passar!
Fica o rio a correr dentro das veias.
Quanta angústia levar,
Quantas areias
De oiro
Ou de ilusão,
É como se nos fossem afogar
A inquietação.

Arcos de ferro ou de granito
E sólidos soalhos de varanda
Não me parecem piso de quem anda
A descobrir as formas imprecisas
Desta humana aventura.
Só de credo na boca vale a pena
Olhar a vida, que da sepultura
Nos acena.

Miguel Torga
(1907-1995)
 PANORAMA


Pátria vista da fraga onde nasci.
Que infinito silêncio circular!
De cada ponto cardeal assoma
A mesma expressão muda.
É de agora ou de sempre esta paisagem
Sem palavras
Sem gritos,
Sem o eco sequer de uma praga incontida?
Ah! Portugal calado!
Ah! povo amordaçado
Por não sei que mordaça consentida!

Miguel Torga
(1907-1995)
LEI SÁLICA


As  mulheres da família sempre
tiveram  um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.


Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.


Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.


Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.

Inês Dias
In" Um Raio Ardente e Paredes Frias"

sábado, 8 de junho de 2013

SE UMA ROSA INFINITA ME EXPLODISSE NO PEITO.



Se uma rosa infinita me explodisse no peito
e, ao chegar o crepúsculo, me florescesse nos lábios,
deixarias que fosse removendo as sombras
- porque vives nas sombras - com as minhas mãos sedentas,
com cavalos de insónia galopando à minha frente,
e a colocasse lentamente nos teus ombros nocturnos?

Se um ramo de fogo me brotasse da língua,
deixarias que fosse como um vento na noite
- essa noite que tens na tua voz e na tua casa -,
a dizer-te as palavras no dorso nu?

Antonio Gamoneda
In " Oração Fria"
Trad. de João Moita
Assírio & Alvim
(2013)






 LÍNGUA PORTUGUESA.



Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac
(1865-1918)

 

AMOR

 

A minha maneira de te amar é simples:
aperto-te contra mim
como se houvesse um pouco de justiça no meu coração
e eu ta pudesse dar com o corpo.

Quando revolvo os teus cabelos
algo de belo se forma entre as minhas mãos.

E quase não sei mais nada. Só aspiro
a estar em paz contigo e a estar em paz
com um dever desconhecido
que às vezes também pesa no meu coração.

Antonio Gamoneda
 In "Oração Fria"
Trad. de João Moita
 Assírio & Alvim, 2013.

domingo, 19 de maio de 2013

  INSÓNIA.
 
Perguntarás aos peixes
como se dorme
de olhos abertos. Porque o sono
dos vivos é um fosso
de víboras
insones. E precisas
por isso
de estar atento. De dormir
acordado.
 
Albano Martins
In " Escrito a Vermelho"