quarta-feira, 1 de maio de 2013


 PERFIL


Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos são naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fonte incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.





Miguel Torga
(1907-1995)
Cristalizações



   


Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
 Vibra uma imensa claridade crua.
 De cócoras, em linha, os calceteiros,
 Com lentidão, terrosos e grosseiros,
 Calçam de lado a lado a longa rua.

Com as elevações secaram do relento,
 E o descoberto sol abafa e cria!
 A frialdade exige o movimento;
 E as poças de água, como em chão vidrento,
 Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
 Disseminadas, gritam as peixeiras;
 Luzem, aquecem na manhã bonita,
 Uns barracões de gente pobrezita
 E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem as aves; nem o choro duma nora!
 Tomam por outra parte os viandantes;
 E o ferro e a pedra - que união sonora! -
 Retinem alto pelo espaço fora,
 Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
 Cuja coluna nunca se endireita,
 Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
 Pesam enormemente os grossos maços,
 Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
 Que espessos forros! Numa das regueiras
 Acamam-se as japonas, os coletes;
 E eles descalçam com os picaretes,
 Que ferem lume sobre sobre pederneiras.

E nesse rude mês, que não consente as flores,
 Fundeiam, como a esquadra em fria paz,
 As árvores despidas. Sóbrias cores!
 Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
 Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio - o grande agente! -
 Carros de mão, que chiam carregados,
 Conduzem saibro, vagarosamente;
 Vê-se a cidade, mercantil, contente:
 Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
 Em arco, sem as nuvens flutuantes,
 O céu renova a tinta corredia;
 E os charcos brilham tanto, que eu diria
 Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
 Eu tudo encontro alegremente exacto.
 Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
 E tangem-me, excitados, sacudidos,
 O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
 De tão lavada e igual temperatura!
 Os ares, o caminho, a luz reagem;
 Cheira-me a fogo, a sílex, a ferrugem;
 Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
 Dois assobiam, altas as marretas
 Possantes, grossas, temperadas de aço;
 E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
 E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
 Que vida tão custosa! Que diabo!
 E os cavadores pousam as enxadas,
 E cospem nas calosas mãos gretadas,
 Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
 Uma bandeira penso que transluz!
 Com ela sofres, bebes, agonizas:
 Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
 E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
 Surge um perfil direito que se aguça;
 E ar matinal de quem saiu da toca,
 Uma figura fina, desemboca,
 Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
 E a quem, à noite na plateia, atraio
 Os olhos lisos como polimento!
 Com seu rostinho estreito, friorento,
 Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
 Como lajões. Os bons trabalhadores!
 Os filhos das lezírias, dos montados:
 Os das planícies, altos, aprumados;
 Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
 Furtiva a tiritar em suas peles,
 Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
 Neste Dezembro enérgico, sucinto,
 E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
 Eles, bovinos, másculos, ossudos,
 Encaram-na, sanguínea, brutalmente:
 E ela vacila, hesita, impaciente
 Sobre as botinhas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
 Sem que inda o público a passagem abra,
 O demonico arrisca-se, atravessa
 Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
 Com seus pezinhos rápidos, de cabra!

Cesário Verde
(1855-1886)
ANSIEDADE? É POSSÍVEL


Ansiedade? é possível
Assim se chama a este querer não querer voltar a querer o seu contrário

E depois? De que serve reduzir este impossível mal dizível
ao que vem e não vem no dicionário?

Mário Dionísio
(1916-1993)
In "Poesia Incompleta"

COMO NASCEM AS BANDEIRAS

Até hoje, estão assim nossas bandeiras.
Bordou-as o povo com ternura,
coseu os trapos com o sofrimento.

Cravou a estrela com as mãos ardentes

E cortou, de camisa ou firmamento,
o azul para a estrela da pátria.

O vermelho, gota a gota, ia nascendo.

Pablo Neruda

(1904-1973)

sábado, 27 de abril de 2013

 HOMEM DIANTE DO MAR


É como eu, sinto a angústia e o sangue.
Sublime na tristeza, segue em direcção ao mar,
para que o sol e o vento possam mitigar a sua agonia.
Sereno jaz o rosto, e o coração em ruínas
quer viver ainda para morrer mais.

É como eu, vejo com os olhos extraviados.
Procura a guarida da noite marinha,
arrasta também a consumida parábola de um voo
sobre o velho coração.

Segue vestido com a solidão nocturna.
As mãos suspensas sobre o frémito oceânico,
suplica ao tempo marinho que o liberte
do golpe sem tréguas a agitar
o seu velho coração repleto de sombras.

Sinto como se ele fosse o meu retrato
moldado pela cólera eterna
de um mar interior. Sublime na tristeza
tenta, em vão, não calcinar a areia
com o ácido amargo das suas lágrimas.

É como se fosse meu
o seu velho coração repleto de sombras.

Hérib Campos Cervera
(Paraguai)

(1905-1953)
Trad. de Jorge Henrique Bastos.
 EU VENHO DO OUTRO LADO


Eu venho do outro lado
Eu venho do outro lado e não tenho memórias
Nasci como os mortais, eu tenho uma mãe.
E uma casa com muitas janelas,
Tenho irmãos, amigos.
E uma cela com uma janela fria.
Minha é a onda, quebrada pelas gaivotas,
Tenho minha própria visão,
E uma muda extra de grama.
Minha é a lua no limite distante das palavras,
E a recompense dos pássaros,
E da imortal oliveira.
Eu caminhei por este continente antes das espadas
Tomarem o corpo vivente das sagradas escrituras.
Eu venho do outro lado. Represento o céu exteriorizado em sua mãe
Quando o céu a martiriza
Quando me puno para meu próprio aprendizado.
Para uma nuvem retornando.
Eu aprendi todo o valor das palavras no galanteio do sangue
Então eu pude exceder a regra.
Eu aprendi que todas as palavras se sacrificam
Para formar uma única palavra: pátria…


Mahmud Darwisk
(1941-2008)
Trad. de Fábio Vieira.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A CORAGEM


No sofrimento, o muito que aprendemos
nunca mais deixará esta bagagem
que levamos, agora que sabemos
qual é a cor dos olhos da coragem.

Por tudo, tudo aquilo que perdemos
na voragem dos monstros, na voragem
cruel, a liberdade que hoje temos
vem compensar os gastos da viagem.

Viagem  longa e por caminhos falsos,
com ciladas, e a dor dos pés descalços,
e calúnias, e mortes tantas vezes.

Nos olhos da coragem descobrimos
com quantos sacrifícios conseguimos
devolver Portugal aos portugueses.

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "26 Sonetos"
Lisboa 1979.