quarta-feira, 1 de maio de 2013

ANSIEDADE? É POSSÍVEL


Ansiedade? é possível
Assim se chama a este querer não querer voltar a querer o seu contrário

E depois? De que serve reduzir este impossível mal dizível
ao que vem e não vem no dicionário?

Mário Dionísio
(1916-1993)
In "Poesia Incompleta"

COMO NASCEM AS BANDEIRAS

Até hoje, estão assim nossas bandeiras.
Bordou-as o povo com ternura,
coseu os trapos com o sofrimento.

Cravou a estrela com as mãos ardentes

E cortou, de camisa ou firmamento,
o azul para a estrela da pátria.

O vermelho, gota a gota, ia nascendo.

Pablo Neruda

(1904-1973)

sábado, 27 de abril de 2013

 HOMEM DIANTE DO MAR


É como eu, sinto a angústia e o sangue.
Sublime na tristeza, segue em direcção ao mar,
para que o sol e o vento possam mitigar a sua agonia.
Sereno jaz o rosto, e o coração em ruínas
quer viver ainda para morrer mais.

É como eu, vejo com os olhos extraviados.
Procura a guarida da noite marinha,
arrasta também a consumida parábola de um voo
sobre o velho coração.

Segue vestido com a solidão nocturna.
As mãos suspensas sobre o frémito oceânico,
suplica ao tempo marinho que o liberte
do golpe sem tréguas a agitar
o seu velho coração repleto de sombras.

Sinto como se ele fosse o meu retrato
moldado pela cólera eterna
de um mar interior. Sublime na tristeza
tenta, em vão, não calcinar a areia
com o ácido amargo das suas lágrimas.

É como se fosse meu
o seu velho coração repleto de sombras.

Hérib Campos Cervera
(Paraguai)

(1905-1953)
Trad. de Jorge Henrique Bastos.
 EU VENHO DO OUTRO LADO


Eu venho do outro lado
Eu venho do outro lado e não tenho memórias
Nasci como os mortais, eu tenho uma mãe.
E uma casa com muitas janelas,
Tenho irmãos, amigos.
E uma cela com uma janela fria.
Minha é a onda, quebrada pelas gaivotas,
Tenho minha própria visão,
E uma muda extra de grama.
Minha é a lua no limite distante das palavras,
E a recompense dos pássaros,
E da imortal oliveira.
Eu caminhei por este continente antes das espadas
Tomarem o corpo vivente das sagradas escrituras.
Eu venho do outro lado. Represento o céu exteriorizado em sua mãe
Quando o céu a martiriza
Quando me puno para meu próprio aprendizado.
Para uma nuvem retornando.
Eu aprendi todo o valor das palavras no galanteio do sangue
Então eu pude exceder a regra.
Eu aprendi que todas as palavras se sacrificam
Para formar uma única palavra: pátria…


Mahmud Darwisk
(1941-2008)
Trad. de Fábio Vieira.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A CORAGEM


No sofrimento, o muito que aprendemos
nunca mais deixará esta bagagem
que levamos, agora que sabemos
qual é a cor dos olhos da coragem.

Por tudo, tudo aquilo que perdemos
na voragem dos monstros, na voragem
cruel, a liberdade que hoje temos
vem compensar os gastos da viagem.

Viagem  longa e por caminhos falsos,
com ciladas, e a dor dos pés descalços,
e calúnias, e mortes tantas vezes.

Nos olhos da coragem descobrimos
com quantos sacrifícios conseguimos
devolver Portugal aos portugueses.

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "26 Sonetos"
Lisboa 1979.


LEVAI-ME POR PIEDADE ONDE A VERTIGEM
 

Levai-me por piedade onde a vertigem
com a razão me arranque a memória.
Por piedade! Tenho medo de ficar
com a minha dor a sós!


Gustavo Adolfo Bécquer
(1825-1870) 

domingo, 21 de abril de 2013

NO SILÊNCIO VAZIO


No silêncio vazio
que o medo impõe à vida
corre um estranho arrepio.
Vozes uivam de cio
na noite corrompida.

Porque choram as rosas?
Porque choram os cravos?
Noite, que mortes gozas
onde acabam chorossas
as esperanças dos bravos?

Quem viu rosas doridas?
Quem viu cravos chorando?
Nem com milhões de vidas
sarariam as feridas
que em nós estão sangrando.

De cada sombra espreita
o ódio frio e fero.
Quem à dor se sujeita
torna a vida mais estreita
que a suspeita de um zero.

não chores, esperança, o rumo
que o chão te subverteu.
Ergue-te, voz, a prumo.
Raiva, some-te em fumo.
Rasga, sonho, o teu véu.


Armindo Rodrigues
(1904-1993)
In "A Esperança Desesperada"
Coimbra 1948.