sexta-feira, 19 de abril de 2013

COM SAL E SOL, EU ESCREVO


Escrevo no meio de tantas derrocadas,
tantas ruínas, tanto desespero,
mas também tanta esperança renovada,
tantos jovens que, no meio do desencanto,
mantêm a pureza das cascatas,
tantas crianças que são a primavera
que chegará um dia e ficará
no coração da terra, quantas vezes
mutilada, humilhada por aqueles
que trazem a ganância no seu sangue.
Com sol e sal eu escrevo.
E todos juntos vamos transformar,
com tudo o que nós temos de coragem,
este mundo idiota
que envia flores aos mortos
e atira pedradas aos vivos.

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Com Sol e Sal, Eu Escrevo"
O VOO CONTRA O VENTO


Para voar não basta equipamento,
não basta equipamento e equipagem,
qualquer invento que enfrentar o vento
enfrenta o vento se tiver coragem.

Se não tiver deixou de ser invento,
ou fica invento e não será viagem,
viagem contra o vento é portento
de quem fez o invento à sua imagem.

Lá no fundo do voo, bem no fundo,
lá onde as praias dos confins do mundo
se espraiam numa doce claridade

a liberdade aguarda o viajante,
o que era longe já não é distante
e o viajante alcança a liberdade.

Sidónio Muralha
(1920-1982) In "26 Sonetos"
Lisboa 1979.

AS SOMBRAS ARMADAS


As sombras armadas
traçando no escuro
armadilhas cerradas
com grades cruzadas
e paredes de muro

vigiam caladas
o nosso futuro

João Apolinário
(1924-1988)
In "O Guardador de Automóveis"
Edição de 29 de Dezembro de 1956.




SERENIDADE


Quando ponho os olhos nas coisas,
quando a mim mesmo me  observo,
não é uma paz impossível que procuro,
mas a explicação universal de cada tumulto,
o repouso, na ferocidade inconsciente do mundo,
desta aspiração que me queima
de uma impossibilidade que nunca poderei sentir.

Odeio e amo com a mesma naturalidade
com que as pedras caem para baixo
e não para cima,
com que cada vida caminha para a morte
e indiferentes à morte outras vidas começam
para caminharem para a morte por sua vez.

Odeio e amo e ainda bem
que não sou capaz só de amor ou só de ódio,
que não me deixariam ver o aspecto verdadeiro
de uma natureza caótica que não escolhi
mas é a única
 em que a minha vida fugaz decorre.

Ainda bem que sou capaz de analisar  tudo
e a desordem da vida me agrada
mesmo quando, por mais esforços que faça,
não vislumbro nela
 nem uma imitação de harmonia.

Assim, a compreensão de cada tragédia,
de cada riso,
de cada monstruosidade,
de cada pavor,
não são para mim uma simples curiosidade,
nem um abismo de que me debruço perversamente,
mas apenas uma necessidade
que a minha presença me impõe,
idêntica à de beber água quanto tenho sede.

Bem vejo que a vida é breve e quando se se chega
ao fim e se repara nos erros cometidos,
já não há remédio senão cruzar os braços,
porque o passado ficou irremediàvelmente  para trás.

Bem vejo que a vida é uma aventura
que maior parte das vezes só traz
desilusões, lágrimas, perplexidades.
Mas é a única oportunidade
que cada um de nós tem
no imenso desdobrar dos séculos implacáveis.



Não serve para nada para além de nós.
Mas visto que é assim
e não pode ser de outro modo,
ainda mais alegremente atiro
a minha voz para o fragor
das  outras vozes e das tempestades,
e quero que o mundo pareça cada vez mais amplo
 e cada vez mais claro a todos os olhos.

Toda a experiência feita de suor, de lágrimas,
de combates perdidos, de rumos errados,
que cada um acumula no decurso da vida,
cada um a perde no mesmo tempo
que a última palavra lhe cai dos lábios
como um fruto bichoso que o vento arranca.
Mas o mundo persiste e nele fica
mais uma certeza para os outros homens.

E o amor intenso de uma nitidez cada vez maior,
a curiosidade dos horizonte fechados ainda,
a exaltação das mãos estendidas
fraternalmente umas para as outras,
o ódio feroz da injustiça,
continuam a arder nos corações,
com a mesma inutilidade cósmica,
mas com o mesmo entusiasmo que faz
de cada momento uma eternidade.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
In "A Esperança Desesperada"
Edição do autor. Coimbra 1948.






domingo, 31 de março de 2013

À TERRA

Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida! 

Miguel Torga
(1907-1995)
 A UTOPIA.


A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

Eduardo Galeano.

domingo, 24 de março de 2013

SONAMBULISMO


Tombam os dias inúteis:
amanhece, é tarde, anoitece.
Mas a nós que nos importa
ser manhã, meio dia ou noite?!...
Sonâmbula a vida decorre
- nas ruas, a paz larvar dos grandes cemitérios:
dentro de nós, cada um
apodrece.
Enchem-se de títulos vibrantes os jornais
- mas tudo é tão longe...
Passam homens por homens e não se conhecem:
Boa tarde! Bom dia!
Cada um fechado nas suas fronteiras,
os gestos vazios
a vida sem sentido
- sonambulismo apenas.

Acorda!
Ainda que seja só para o sobressalto,
que as ilusões do sonho se desfaçam
e as esperanças morram todas nessa hora!

Acorda!
ainda que o caminho a percorrer te espante
e o peso da obra a realizar te esmague!

Ainda que acordar seja
morrer depois aos poucos, em cada momento,
dolorosamente.

Joaquim Namorado
(1914-1986)
In "Líricas Portuguesas"
3ª série (Novembro de 1958)