sábado, 23 de março de 2013

 POEMA DA VOZ QUE ESCUTA


Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.

Políbio Gomes dos Santos
(Ansião, 7/8/1911 - Ansião 3/8/1939)
In " A Voz que Escuta"
 QUANDO EU PARTIR.


Quando eu partir, quando eu partir de novo
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir...
Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida. . .
Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.
Mas ali
Hei de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre.

Ruy Cinatti
(1915-1986)
In "Nós Não Somos Deste Mundo"
(1941)

domingo, 17 de março de 2013

 AOS HOMENS NO CAIS


Plantados como árvores no chão
ao alto ergueis os vossos troncos nus
e o fruto que produz a vossa mão
vem do trabalho e transparece à luz

Nenhum passado vale o dia-a-dia
Sonho só o que vós me consentis
Verdade a que de vós só irradia
- Portugal não é pátria mas país

Ruy Belo
(1933-1978)
 POEMA PARA HABITAR


A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.

Albano Martins
In "Coração de Bússola"

 PARTIR


Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!...
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais...
Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.

Passa a ave no céu bebendo azul e diz: -Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: -Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam no fundo dos meus olhos: -Vem!

- Camaradas,eu vou,esperai um pouco...
Ai,mas a vida nunca espera por ninguém...
E a noite chega vingadora;
o vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço
- e fico, desgraçado de ficar!..

Manuel da Fonseca
(1911-1993)
In "Poemas Completos"
Edição Forja (1978)
SONETO DA CHUVA


 Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, Terra que eu pisei!
( Aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço? )

Um véu nos ombros húmidos do espaço,
a chuva nas memórias que guardei!
Sabe meu pensamento porque irei
semeador da esperança a passo e passo.
Se a Terra bebe as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
Menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio!

Carlos de Oliveira

(1920-1981)
In "Líricas Portuguesas"
3ª Série Selecção,prefácio e notas de Jorge de Sena
Portugália Editora (Novembro de 1958)

sábado, 16 de março de 2013

SOBRE UM VERSO TOMADO DE EMPRÉSTIMO


É no verão que o fruto amadurece,
claro sinal do tempo definido.
E a cada passo o sol-aranha tece,
em cor, as frágeis malhas do vestido.

É no verão também que somos mais
da terra onde nascemos e esperamos
o barco que nos leve e o próprio arrais:
PELO SONHO É QUE VAMOS.

Bagagem: esta esperança merecida
com sua cor de sangue verdadeira:
E é quanto basta, ó companheira,
para ser nossa, a vida!


Daniel Filipe
(1925-1964)
In "Pátria Lugar de Exílio"