domingo, 17 de março de 2013


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Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!...
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais...
Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.

Passa a ave no céu bebendo azul e diz: -Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: -Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam no fundo dos meus olhos: -Vem!

- Camaradas,eu vou,esperai um pouco...
Ai,mas a vida nunca espera por ninguém...
E a noite chega vingadora;
o vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço
- e fico, desgraçado de ficar!..

Manuel da Fonseca
(1911-1993)
In "Poemas Completos"
Edição Forja (1978)
SONETO DA CHUVA


 Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, Terra que eu pisei!
( Aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço? )

Um véu nos ombros húmidos do espaço,
a chuva nas memórias que guardei!
Sabe meu pensamento porque irei
semeador da esperança a passo e passo.
Se a Terra bebe as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
Menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio!

Carlos de Oliveira

(1920-1981)
In "Líricas Portuguesas"
3ª Série Selecção,prefácio e notas de Jorge de Sena
Portugália Editora (Novembro de 1958)

sábado, 16 de março de 2013

SOBRE UM VERSO TOMADO DE EMPRÉSTIMO


É no verão que o fruto amadurece,
claro sinal do tempo definido.
E a cada passo o sol-aranha tece,
em cor, as frágeis malhas do vestido.

É no verão também que somos mais
da terra onde nascemos e esperamos
o barco que nos leve e o próprio arrais:
PELO SONHO É QUE VAMOS.

Bagagem: esta esperança merecida
com sua cor de sangue verdadeira:
E é quanto basta, ó companheira,
para ser nossa, a vida!


Daniel Filipe
(1925-1964)
In "Pátria Lugar de Exílio"
 O RELÓGIO


Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Uma vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade

que continua cantando
se deixa de ouvi-lo a gente:
como a gente às vezes canta
para sentir-se existente.


João Cabral Melo Neto
(1920-1999)

sexta-feira, 15 de março de 2013

 ROTEIRO



Meu jeito visionário — meu astrolábio. 
         Meu ser mirabolante — um alcatruz. 
         De variadas coisas fiz a minha esperança
         e sempre em várias coisas vi a minha cruz.

         Aos padrões que em vários pontos encontrei
         na rota íntima de vestes tropicais
         eu dei as mãos, serenas e intactas,
         as minhas dores mais certas e reais.

         Nos vários sítios que — abismos —
         toldaram minha voz por um olhar,
         eu evitei o perigo e os prejuízos
         à voz feita de calma, meu cantar.

         Aos rasgos que, de outrora, evocados
         foram sempre pelo seu valor,
         eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
         o meu silêncio amargo, o meu calor,

         E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
         desalentavam já meu ser cativo,
         parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
         como lembrança para um dia altivo.

João Rui de Sousa
In "Circulação (1960)

segunda-feira, 11 de março de 2013

SARGACEIRO


É longo e pesado o engaço!
A barca vem cheia
de suor e de sargaço
e fome.
Tanto e nada!
Sargaceiro!
Limpas sargaço
do fundo deste mar
que, para ti, é baço
e não tem aquele aspecto sonhador
que nós lhe damos.
Ele, o mar...
Empresta-me o teu engaço:
há tanto que limpar!
 
Álvaro Feijó
(1916-1941)

domingo, 10 de março de 2013

POEMA

Negue-se o mundo a me dizer; sim!
Negue-se o ar da serra aos meus pulmões!
Fechem-se as janelas porque vim
interromper os solheiros e os pregões!
Neguem-me o passaporte
para o estrangeiro!
Encontre-se sem norte
e sem dinheiro
(e desprevenidamente des-emotiva!)
frente às rodas paralelas
duma qualquer locomotiva,
ou entre elas,
ou melhor: debaixo delas!
- Por tudo encolherei os ombros
que, em suma, dizem crentes e descrentes
a vida é feita de rombos e de tombos,
doença, hostilidade e guinchos de serpentes.

Mas tu - (Homem! Garra!
Sucesso! ou Vento! ou Amarra!
Vício alegre! ou Labirinto!
Bebedeira de absinto
Filhos!
E Deus neles!)
- Não me negues o tom simples
e às vezes reles
da tua voz pura-impura
com que seques
a minha vil e vã desenvoltura.

Fernanda Botelho
(1926-2007)