domingo, 10 de março de 2013

 NA PRAIA DA AREIA BRANCA


Na praia da Areia Branca,
Os búzios não falam só do mar:
- Falam das pragas, dos clamores,
da fome dos pescadores
e dos lenços tristes a acenar.

Búzios da praia da Areia Branca:

- um dia
havéis de falar
 unicamente do mar.

Sidónio Muralha
(1920-1982)

CANÇÃO DA BEIRA-MAR
 
 
Ó mar Atlântico
à beira donde sofremos,
quando virá a maré-cheia da partida?
Ó mar de vendavais,
quando, quando?

Que triste a nossa vida,
tudo temos:
barcos, remos e tripulação,
só nos falta partir. . .

Ó mar que és um leão
com tua garra,
a vaga
despedaça a amarra
que nos prende à terra.
Queremos partir mesmo sem mestre!
Estamos fartos do marasmo
deste balanço de lago
onde apodrece nossa carne dolorida.

Que ansiedade de mar largo,
ai que desejo de Vida!
Todas as noites a lua nasce
e o mar se aquieta. . .
Faminta na beira do rio
tremendo no frio
que miséria dias e dias renova,
a tripulação inquieta
murmura chorando!
- Será amanhã a nossa lua-nova?
Ó mar, quando partimos, quando?

A noite passa,
o dia volta. . .
e no peito dos homens
sempre o mesmo grito de ansiedade e de desgraça:
- Ó mar de revolta!
montanhas de água,
oceano de vendavais,
Atlântico da partida!
A nossa mágoa, a nossa mágoa. . .
Não podemos mais. . .
Quando nos leva o mar?
Quando começa a Vida?
 
Manuel da Fonseca
(1911-1993)
In "Poemas Completos"
Edição Forja (Dezembro de 1978)
PERMANÊNCIA.


Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua. Falta-lhe
o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.

O poeta lê apenas os sinais
da terra. Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e
de presença. Sabe
apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil. Conhece
apenas do tempo o já perdido; do amor
a câmara escura sem revelações; do espaço
o silêncio de um vôo pairando
em toda a parte.

Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
- morto redivivo.
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo. 



Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)
COMEÇO.

Magoei os pés no chão onde nasci.
Cilícios de raivosa hostilidade
Abriram golpes na fragilidade
De criatura
Que não pude deixar de ser um dia.
Com lágrimas de pasmo e de amargura
Paguei à terra o pão que lhe pedia.

Comprei a consciência de que sou
Homem de trocas com a natureza.
Fera sentada à mesa
Depois de ter escoado o coração
Na incerteza
De comer o suor que semeou,
Varejou,
E, dobrada de lírica tristeza,
Carregou.



Miguel Torga
(1907-1995)

 GOTA DE ÁGUA.


Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.

António Gedeão
(1906-1997)

sábado, 9 de março de 2013

 CHAMO PÁTRIA DE PROFUNDAS VEIAS.


Chamo pátria de profundas veias
a essa relação viva entre os homens se ela houvesse
e não esta condição de anónima indiferença
e de vaga identidade flutuante
sem cúpula e sem os templos brancos
com jardins de um ócio voluptuoso
É por isso que estamos condenados
à solidão de não pertencermos à dilatada força
que constitui um universo e projecta um horizonte
de humanidade viva em floração unânime
Somos apenas cúmplices da nossa inabilidade
e dos ornamentos com que a revestimos
para parecer que somos e ser o que parecemos
Quem escreve procura abrir um espaço numa muralha
tão opaca mas tão vaga e cinzenta
que esse espaço imaginado de branca identidade
não é mais que um aceno à possível liberdade
para além da sua gloria profanada

António Ramos Rosa
In "Antologia Poética"

sábado, 2 de março de 2013

TIREM-ME OS DEUSES.

 Tirem-me os deuses
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
 Amor, glória e riqueza.

Tirem, mas deixem-me,
Deixem-me apenas
A consciência lúcida e solene
Das coisas e dos seres.

Pouco me importa
Amor ou glória,
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.

Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objectos
Tem abrigo seguro.

Seus fundamentos
São todo o mundo,
Seu amor é o plácido Universo,
Sua riqueza a vida.

A sua glória
É a suprema
Certeza da solene e clara posse
Das formas dos objectos.

O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E inútil do Universo.

Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.

Ricardo Reis, in "Odes"
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

(1888-1935)