quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

 ALFABETO DO MUNDO


Em vão me demoro a soletrar
o alfabeto do mundo.
Leio nas paredes um escuro soluço,
ecos afogados em torres e edifícios,
indago a terra com o tacto
cheia de rios, de paisagens e cores,
mas engano-me sempre ao copiá-los.
Preciso de escrever cingindo-me a um risco
sobre o livro do horizonte.
Desenhar o milagre desses dias
que flutuam envoltos na luz
e se desprendem em cantos de pássaros.
Quando na rua os homens que vagueiam
do seu rancor à sua fadiga, matutando,
se me revelam inocentes mais que nunca.
Quando o batoteiro, a adúltera, o malandro,
os mártires do ouro ou do amor
são só signos que nunca li bem,
que ainda não consigo anotar em meu caderno.
Quanto eu queria ao menos um instante
que esta página febril de poesia
gravasse em sua transparência cada letra:
o o do ladrão o t de santo,
o gótico ditongo do corpo e seu desejo,
com a mesma escrita do mar nos areais,
a mesma cósmica piedade
que a vida desdobra ante meus olhos.

Eugenio Montejo
(1938-2008)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad.de José Bento

domingo, 24 de fevereiro de 2013

 CAMPOS DE  SÓRIA (IV)


As figuras do campo sobre o céu!
Dois lentos bois lavram
numa colina, ao começar o Outono,
e entre as negras testas recurvadas
sob o pesado jugo,
pende um cesto de juncos e giesta,
que é um berço de um menino;
e atrás da junta avançam
 um homem que se inclina para a terra
e uma mulher que nos regos abertos
lança a semente.
Sob uma nuvem de carmim e chamas,
no oiro fluido e esverdeado
do poente, as sombras agigantam-se.

António Machado
(1875-1939)
Trad. De José Bento.
O IRRECUPERÁVEL
 

O irrecuperável
Recuperado ei-lo aqui sorrindo
Com a boca torcida mas feliz
Com os braços esmagados mas feliz

O que não volta eis volta
Por ignoradas mãos
Numa hora esquecida
Entre as horas marcadas

Possivel o recomeço
Possivel o sobressalto
Possivel o sonho solto
Possivel um mundo novo
Possivel o impossivel 
 
Outro é o destino do homem
 
Mário Dionísio 
(1916-1993)
In "O Riso Dissonante"
(1950)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

EIS-NOS AQUI

Eis-nos aqui, sentados à lareira
Do desespero.
O borralho ideal vai-se apagando,
Enquanto o vento da realidade
Sopra lá fora.
É esta a nossa hora
De amor
Ou de traição?
Porque fechamos todas as portas
Do coração,
Entanguidos de frio e de terror?
Se o temporal entrasse,
Talvez a labareda se ateasse
E nos desse calor ...

Miguel Torga
(1907-1995)
 CONTRACANTO
Aqui longe do sol que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.

Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.

Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
José Saramago
(1922-2010)
In "Os Poemas Possíveis"
Zeca Afonso 2/8/1929 - 23/2/1987. No 26º aniversário da sua morte.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013




SE CANTASSE.


Se cantasse, talvez o coração
Sossegasse no peito.
Mas vou perdendo o jeito
De cantar
A vida, devagar,
Leva-nos tudo,
E deixa-nos na boca o gosto de ser mudo.

Miguel Torga
(1907-1995)
Coimbra, 12 de Outubro de 1974