domingo, 17 de fevereiro de 2013

 O PÃO.


De sol a sol, o arado lavra a terra.

De sol a sol, cai o suor ao chão.
E como cada gota é um grão
Da sementeira,
É puro sofrimento que, à torreira
Da futura colheita,
Ceifa, malha e peneira
A fome insatisfeita.
 
Miguel Torga
(1907-1995)

sábado, 16 de fevereiro de 2013

 LEVAI-ME.

Levai-me por piedade onde a vertigem
com a razão me arranque a memória.
Por piedade! Tenho medo de ficar
com a minha dor a sós! 


Gustavo Adolfo Bécquer
(1836-1870)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

 SOU UM EVADIDO.

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa
(1888-1935)
E, ENORME, NESTA MASSA IRREGULAR.


E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!


Cesário Verde
(1855-1886) 
MESA DE SONHOS


 Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida

Alexandre O'Neill

(1924-1986)
In "No Reino da Dinamarca"

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

 POR...

Por um olhar, um mundo;
por um sorriso, um céu;
por um beijo...não sei
que te daria eu.


Gustavo Adolfo Bécquer
(1836-1870)
 
 ENQUANTO HOUVER.


Enquanto houver uns olhos que reflectem
outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se
duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!


Gustavo Adolfo Bécquer
(1836-1870)