sábado, 2 de fevereiro de 2013

EM LOUVOR DA ALEMANHA.





Imperiais, burgueses, grosseria
como de duques de uma Idade-Média
sonhada por românticos no vómito
da cervejaria a mais - e todavia
a pompa de sentir que a realidade
é como esse equilíbrio de ser besta
à beira de sonhar-se o universo.
 
Jorge de Sena
(1919-1978)

 

 APOLOGIA DO SONHO

 

Que do sono só se salva o sonho
quando, sendo penosa a cadência dos dias,
esse sonho se torna licor inebriante
que por dentro nos lava ou rasura o frio
de viajar por entre as catacumbas.

Que esse sonho salva, bem sabemos,
nas tão difíceis contas a prestar
à razão mais corrente e à voz mesquinha:
dizerem que dormir é descansar
para voltar - sem sonho - à mesma vinha
que, no dia-a-dia, se tem de amanhar...

João Rui de Sousa.
 AMIGOS DESCONHECIDOS


Quando ouvi onde ouvi este rosto vulgar e fatigado
estes olhos brilhantes lá no fundo
e este ar abandonado e inconformado
que aproxima?

Quando ouvi esta voz
que se eleva em surdina em meu ouvido e diz
frases tão conhecidas?

Quando foi que senti
estes dedos amigos nos meus dedos
este aperto de mão
tão comovidamente prolongado?

Não somos nós dois homens estranhos que se cruzam
com o mesmo passado
e com a mesma féria?

Ah dois amigos velhos que se encontram
pela primeira vez.

Mário Dionísio
(1916-1993)
 ESTÁS SÓ.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

Ricardo Reis / Fernando Pessoa
(1888-1935)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

 FADO DE COIMBRA Nº4

Não vem ao caso dizer quanto te amo
Aperto o sol no peito e não és tu
Que noite nos meus braços se te chamo
Que vestido de sombra em corpo nu

Não vem ao caso dizer que sinto frio
Se amanheço a teu lado e tu não estás
E escrevo um poema que ninguém ouviu
Com as palavras que não sou capaz

Não vem ao caso dizer que ainda te espero
Como quem espera um filho que morreu
Digo que te desejo e não te quero
Digo que não te quero e não sou eu.

António Lobo Antunes

CHORO DO POETA ATUAL

Deram-me um corpo, só um!
Para suportar calado
Tantas almas desunidas
Que esbarram umas nas outras,
De tantas idades diversas;
Uma nasceu muito antes
De eu aparecer no mundo,
Outra nasceu com este corpo,
Outra está nascendo agora,
Há outras, nem sei direito,
São minhas filhas naturais,
Deliram dentro de mim,
Querem mudar de lugar,
Cada uma quer uma coisa,
Nunca mais tenho sossego.
Ó Deus, se existis, juntai
Minhas almas desencontradas. 

Murilo Mendes
(1901-1975)
 O LAMENTO DA TERRA.


Um dia quando dissermos: "Era o tempo do sol,
Recordem-se, alumiava o mais pequeno ramo
E tanto a mulher idosa como a rapariga admirada,
Sabia dar a sua cor às coisas mal nelas pousava.
Seguia o cavalo corredor e parava com ele.
Era o tempo inesquecível em que estávamos sobre a Terra,
Em que fazia barulho deixar cair qualquer coisa,
Olhávamos em volta com os nossos olhos versados,
Os nossos ouvidos entendiam todas as subtilezas do ar,
E quando o passo do amigo aí vinha, logo o sabíamos;
Apanhávamos tanto uma flor como uma pedra polida,
O tempo em que não podíamos agarrar o fumo,
Ah! só isso as nossas mãos apanhariam agora."

Julles Supervielle
(1884-1960)
Trad. de Filipe Jarro
In " Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"