segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A IDADE NUNCA VEM SÓ.


"A idade nunca vem só!"
Vem com suspiros e lamentações.
Agora vem com um arrastado despertar
E virá mais tarde com um imenso e profundo sono.

John Morris  Jones
(1864-1929)

domingo, 27 de janeiro de 2013

A TAÇA


Esta é a tua taça – a taça que te foi
Destinada desde o princípio.
Não, Meu filho, sei quanta
Dessa bebida escura é fermentação tua,
De falha e paixão, desde há muitas idades atrás,
Desde os anos remotos de ontem, eu sei.

Esta é a tua estrada – uma estrada dolorosa e triste.
Fiz eu as pedras que nunca te dão descanso.
Deixei o teu amigo em caminhos aprazíveis e claros,
E ele virá como tu, até ao Meu peito.
Mas tu, Meu filho, tens de viajar aqui.

Esta é a tua tarefa. Não tem alegria nem graça,
Mas não se destina a qualquer outra mão,
E no meu universo tem o seu lugar medido,
Toma-a. Não te peço que compreendas.
Peço-te que feches os olhos para que vejas o Meu rosto.

Swami Vivekananda
(1863-1902)
In "Rosa do Mundo 2001  Poemas para o Futuro"
Tradução de Cecília Rego Pinheiro
A NUVEM VEIO E O SOL PAROU
A nuvem veio e o sol parou.
Foi vento ou ocasião que a trouxe?
Não sei: a luz se nos velou
Como se luz a sombra fosse.
Às vezes, quando a vida passa
Por sobre a alma que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.
Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu, mau véu, ou quase véu,
E, como tudo, não é nada.
              10-9-1934
Fernando Pessoa
(1888-1935)

sábado, 26 de janeiro de 2013

AÇO.


  Quebre-se de encontro à dureza das arestas
cada desregrada ilusão da minha vida.
Que os bichos vão roendo o vão caruncho
da inútil poeira de astros que imagino.
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,
forte e imarcescível sob os golpes
resiste a minha força verdadeira.
E o poema sempre novo no meu sangue
conhece também sua glória de aço
que vê sem dor as pobres farsas
e os caminhos cruéis em que me perco.
Veio da luz inutilizando os laços
armados no caminho à minha espera,
mão de ferro erguendo-se dos limbos
e mandando-me fitar o sol em face!


Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)
DE TANTO OLHAR O SOL.


De tanto olhar o sol,
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci.
Agora sou no mundo esta negrura.
À procura
Da luz e do juízo que perdi. 


Miguel Torga
(1907-1995) 
CONFIANÇA.


  O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova... 



Miguel Torga
(1907-1995)
CÂNTICO

  Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:

Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza 


Papiniano Carlos
(1918-2012)