domingo, 6 de janeiro de 2013



 A RAFAEL MELERO

É proibido chorar.
É proibido ir com os rios para o mar
onde tudo é igual.
É proibido sorrir
de modo subtil, sem nada dizer,
dizendo que tanto faz o sim ou não.
É proibido violentar
e, ainda que armados de razão, atacar.
É proibido forçar.
É proibido falar do fim
quando tudo é no entanto um: ai! não aí,
e um flutuante ver chegar.
É proibido o gesto
de consciência pessoal, piscar de olhos da liberdade,
porque existem os outros.
É proibido morrer
por cultura, cepticismo, ou porque assim
se descansa de existir.
É proibida a moral
das boas intenções, que, associal,
por nada dá o mais próximo.
Há que crer e viver.
Resolutos, ainda que sem ódio, decidir
o dizer sim claramente.
Vem para mais perto, mais perto.
Não me perguntes o que é claro. Também o vês chegar
na unidade dos homens - tu por mim.

  Gabriel Celaya
(1911-1991)
Trad. de Egito Gonçalves.

sábado, 5 de janeiro de 2013

AS PALAVRAS INTERDITAS.

 Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

(1923-2005)
NUS AQUI ESTAMOS

Nus aqui estamos
perante as carabinas da cegueira
que de nossa pobreza alimentamos

De que cor pintar esta bandeira
que entre ruínas hasteamos?

Terá cor a ânsia verdadeira
quando mal dói a dor de que falamos?

É de insânia a fogueira
em que lenta e lentamente nos queimamos

Mìseramente aí nos instalamos

E com isso uns e outros simulamos
a tal marcha heróica e derradeira

em que vamos

Mário Dionísio
(1916-1993)
In "Poesia Incompleta"
(1966).
 EXCESSIVAMENTE PESSOAL

De pedra sem um gesto
escolho o silêncio voluntário

De pedra sem um gesto
escolho este frio
como um rio de fogo branco
imerso na paisagem do amor enxovalhado

De pedra sem um gesto
oiço agora o que só ouve quem
também de pedra e sem um gesto
 pode ouvir o que não ouve
quem agitado e alegre nesta hora
 nada sabe de lá e para lá

porque só deste tempo
neste odioso tempo
agitado e alegre morto jaz

Mário Dionísio
(1916-1993)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça



Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)

 APELO.

Decidi-vos depressa, enquanto é tempo,
Se me quereis acudir.
Procuro resistir
Ao inimigo,
E preciso de ajuda.
Mas aquele que me acuda,
Saiba que apenas
Poderemos
Combater
Nos altos, nos abismos e nos extremos,
Nos limites do mundo e do meu ser.

Miguel Torga
(1907-1995)

CÂNTICO GRADUAL

Somos todos irmãos.
Desde o primeiro homem
Que desejou mulher,
A nossa lei fraterna
É uma certeza eterna
A crescer.

Somos todos irmãos.
Mesmo aqueles que o não querem,
Lavam, com medo, as mãos,
Se nos ferem.


Miguel Torga
(1907-1995)