sábado, 5 de janeiro de 2013

 EXCESSIVAMENTE PESSOAL

De pedra sem um gesto
escolho o silêncio voluntário

De pedra sem um gesto
escolho este frio
como um rio de fogo branco
imerso na paisagem do amor enxovalhado

De pedra sem um gesto
oiço agora o que só ouve quem
também de pedra e sem um gesto
 pode ouvir o que não ouve
quem agitado e alegre nesta hora
 nada sabe de lá e para lá

porque só deste tempo
neste odioso tempo
agitado e alegre morto jaz

Mário Dionísio
(1916-1993)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça



Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)

 APELO.

Decidi-vos depressa, enquanto é tempo,
Se me quereis acudir.
Procuro resistir
Ao inimigo,
E preciso de ajuda.
Mas aquele que me acuda,
Saiba que apenas
Poderemos
Combater
Nos altos, nos abismos e nos extremos,
Nos limites do mundo e do meu ser.

Miguel Torga
(1907-1995)

CÂNTICO GRADUAL

Somos todos irmãos.
Desde o primeiro homem
Que desejou mulher,
A nossa lei fraterna
É uma certeza eterna
A crescer.

Somos todos irmãos.
Mesmo aqueles que o não querem,
Lavam, com medo, as mãos,
Se nos ferem.


Miguel Torga
(1907-1995)

domingo, 16 de dezembro de 2012

CAMPO DE BATALHA


O poeta caminha, sem destino, desesperado,
vagando o olhar sobre as pilhas de cadáveres
- homens que partiram das suas terras para virem
apodrecer aqui, adubo amontoado.

O poeta escreve sobre os mortos! Recorda
as infâncias tão próximas, as lágrimas na estação,
os beijos da família, o abraço dos amigos,
o comboio enfeitado de flores e de bandeiras.

Estendidos na planície revolvida
nem moscas nem traições os incomodam.
Uma bomba transformou-os em quietude,
as mãos vazias, os amores parados...

Livres da angústia pela morte,
não sofrerão doenças ou velhice.
Haverá missas pela sua alma
e trigo semeado, em breve, neste solo.

Cada um deles esta rígido e perfeito
com direito a um crepe no retrato.
Imperfeita, no conjunto, só a bomba,
mas trabalha-se nela com afinco.

Egito  Gonçalves
(1920-2001)
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa..."





 OS INQUIRIDORES


Está o mundo coberto de piolhos:
Não há palmo de terra onde não suguem,
Não há segredo de alma que não espreitem
Nem sonho que não mordam e pervertam.

Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças:
Há-os castanhos, verdes, amarelos,
Há-os negros, vermelhos e cinzentos.

E todos se encarniçam, comem todos,
Concertados, vorazes, no seu tento
De deixar, como restos de banquete,
No deserto da terra ossos esburgados.

José Saramago
(1922-2010)
In "Os Poemas Possíveis"

 GOSTARIA DE DESCREVER.


gostaria de descrever a emoção mais simples
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol

gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim
mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante

gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade
sem agitar um copo cheio de água

dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra
arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele
mas aparentemente isso não é possível

e só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto

e a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz

tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento

adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas

os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente

Zbigniew Herbert
(1924-1998)
In "Escolhido Pelas Estrelas"
Trad. de Jorge Sousa Braga.