segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

FECHOU-SE A MINHA VIDA DUAS VEZES ANTES DE SE FECHAR.


Fechou-se a  minha vida duas vezes antes de se fechar –
Mas fica por saber
Se a imortalidade me revela
Um evento maior

Tão largo, tão incrível de pensar
Como estes que sobre ela duas vezes tombaram.
Partir é tudo o que sabemos do céu,
Tudo o que do inferno se pode precisar.

Emily Dickinson
(1830-1886)
In " Cem Poemas"
Trad. de Ana Luísa Amaral.
A MANHÃ É DE TODOS.


A Manhã é de todos-
A Noite - a alguns dada -
Para os poucos do império -
A luz da Madrugada.

Emily Dickinson
(1830-1886)
In "Cem Poemas"
Trad. de Ana Luísa Amaral.

domingo, 9 de dezembro de 2012


SEM VITÓRIA VIVES COMIGO

Pequena e carregada.

Só lá fora, onde
as nossas almas ainda estão, na terra de ninguém,
é que se canta. Canta-se
no brilho
daquilo que passou ao nosso lado.

Nem nuvem, nem estrela – nós
não olhamos para cima.

Chega-te mais, anda:
para que não sopre duas vezes o vento
através da nossa
casa aberta.

Paul Celan
(1920-1970)
MORTE

Morrer?
Morrer não é deixar a vida
escapar do corpo;
não é deixar o vento
de varrer o ar;
não é deixar o sol
de produzir o dia;

Morrer, meu amor,
é deixar de amar.

Luís da Mota
In "Cerco de arame farpado"
CEM ANOS DE PERDÃO


Deixaram o vento à solta,
certa noite, no sertão.

Quem deixou o vento à solta?

Namorado das palmeiras
o vento fugiu das grades,
evadiu-se da prisão.

Deixaram o vento à solta,
certa noite, no sertão.

Namorado das palmeiras
foi cantar baladas tristes
toda a noite no sertão.

Quem deixou o vento à solta
tem cem anos de perdão.

Luís da Mota
In "Cerco de arame farpado"

domingo, 2 de dezembro de 2012

 E DE SÚBITO ANOITECE.


Viver é ver morrer, envelhecer é isso,
enjoativo, tenaz cheiro da morte,
enquanto repetes, inutilmente, umas palavras,
cascas secas, vidro partido.
Ver morrer aos outros, àqueles,
poucos, a quem verdadeiramente amaste,
desmoronados, desfeitos, como o fim deste cigarro,
rostos e gestos, imagens queimadas, enrugado papel.
E ver-te morrer a ti também,
remexendo frias cinzas, apagados perfis,
disformes sonhos, turva memória.
Viver é ver morrer e é frágil a matéria
e tudo se sabia e não havia engano,
mas carne e sangue, misterioso fluir,
querem perseverar, afirmar o impossível.
Copo vazio, trémulo pulso, cinzeiro sujo,
na luz nublada do entardecer.
Viver é morrer, nada se aprende,
tudo é um desapiedado sentimento,
anos, palavras, peles, despedaçada ternura,
calor gelado da morte.
Viver é ver morrer, nada nos protege,
nada teve o seu ontem, nada o seu amanhã,
e de súbito anoitece.

Juan Luis Panero
In "Poemas"
Trad. de Joaquim Manuel Magalhães.
TUA NUDEZ


A rosa:
tua nudez feita graça.

A fonte:
tua nudez feita água.

A estrela:
tua nudez feita alma.

Juan Ramón Jiménez
(1881-1958)
(Prémio Nobel em 1956)
In "Antologia Poética)
Trad. de José Bento.