domingo, 9 de dezembro de 2012

MORTE

Morrer?
Morrer não é deixar a vida
escapar do corpo;
não é deixar o vento
de varrer o ar;
não é deixar o sol
de produzir o dia;

Morrer, meu amor,
é deixar de amar.

Luís da Mota
In "Cerco de arame farpado"
CEM ANOS DE PERDÃO


Deixaram o vento à solta,
certa noite, no sertão.

Quem deixou o vento à solta?

Namorado das palmeiras
o vento fugiu das grades,
evadiu-se da prisão.

Deixaram o vento à solta,
certa noite, no sertão.

Namorado das palmeiras
foi cantar baladas tristes
toda a noite no sertão.

Quem deixou o vento à solta
tem cem anos de perdão.

Luís da Mota
In "Cerco de arame farpado"

domingo, 2 de dezembro de 2012

 E DE SÚBITO ANOITECE.


Viver é ver morrer, envelhecer é isso,
enjoativo, tenaz cheiro da morte,
enquanto repetes, inutilmente, umas palavras,
cascas secas, vidro partido.
Ver morrer aos outros, àqueles,
poucos, a quem verdadeiramente amaste,
desmoronados, desfeitos, como o fim deste cigarro,
rostos e gestos, imagens queimadas, enrugado papel.
E ver-te morrer a ti também,
remexendo frias cinzas, apagados perfis,
disformes sonhos, turva memória.
Viver é ver morrer e é frágil a matéria
e tudo se sabia e não havia engano,
mas carne e sangue, misterioso fluir,
querem perseverar, afirmar o impossível.
Copo vazio, trémulo pulso, cinzeiro sujo,
na luz nublada do entardecer.
Viver é morrer, nada se aprende,
tudo é um desapiedado sentimento,
anos, palavras, peles, despedaçada ternura,
calor gelado da morte.
Viver é ver morrer, nada nos protege,
nada teve o seu ontem, nada o seu amanhã,
e de súbito anoitece.

Juan Luis Panero
In "Poemas"
Trad. de Joaquim Manuel Magalhães.
TUA NUDEZ


A rosa:
tua nudez feita graça.

A fonte:
tua nudez feita água.

A estrela:
tua nudez feita alma.

Juan Ramón Jiménez
(1881-1958)
(Prémio Nobel em 1956)
In "Antologia Poética)
Trad. de José Bento.

sábado, 1 de dezembro de 2012

 DE VITA BEATA


Num velho país ineficaz,
um pouco como a Espanha entre duas guerras
civis, numa aldeia à beira mar,
possuir uma casa e poucos bens
e memória nenhuma. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas de minha inteligência.

Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
In "Antologia Poética"
Trad. de José Bento.

NÃO VOLTAREI A SER JOVEM


Que é certo a vida passa
só se começa a compreender mais tarde
– como todos os jovens, decidi
levar a minha vida por diante.

Deixar marca eu queria
e partir entre aplausos
– envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.

Porém passou o tempo
e a verdade mais amarga assoma:
envelhecer, morrer,
é o argumento único da obra.

Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
In "Antologia Poética"
Trad. de José Bento.
 SONETO À MANEIRA DE CAMÕES.


Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)