sexta-feira, 30 de novembro de 2012

QUANDO ESTÁ FRIO NO TEMPO FRIO.


 Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro

 In "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

(13/06/1888 - 30/11/1935)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

REMOINHO

Enrodilhei-me no Vento...
Vou e venho,
vou e venho,
e o Vento sempre a rolar-me,
e agora quero agarrar-me,
lanço a mão a procurar-me,
e é só o Vento que apanho...

Sebastião da Gama
(1924-1952)
In " SERRA-MÃE"
ROMÂNTICO


Olha,
quando vieres, Morte!
não venhas sorrateira.
Quero sentir-te bem;
levar bem nítido, nos lábios,
o travo do teu beijo...

Chorem os outros, Morte!, a dolorida
minha hora final.
P’ra mim, que bom saber até ao fim
a que é que sabe a Vida!...

Sebastião da Gama
(1924-1952)
In " Serra-Mãe"

domingo, 25 de novembro de 2012

NAVEGAR É PRECISO.

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa
(1888-1935)
  VIVE SEM HORAS...


 Vive sem horas. Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala. 


Fernando Pessoa
(1888-1935)
In "Odes de Ricardo Reis"
 NUNCA A ALHEIA VONTADE...


Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Ninguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário
Cumpre alto. Sê teu filho.


Fernando Pessoa
(1888-1935)
In "Odes de Ricardo Reis"

 

sábado, 24 de novembro de 2012

 CANTILENA PARA UM TOCADOR DE FLAUTA CEGO

Flauta da noite que se cerra,
Presença líquida de um pranto,
Todos os silêncios da terra
São as pétalas do teu canto.

Espalha teu pólen na alfombra
Do catre que por fim te acoite
Mel de uma boca de sombra
Como um beijo na boca da noite

E pois que as escalas que cansas
Nos dizem que o dia acabou,
Faz-nos crer que os céus dançam
Porque um cego cantou.

Marguerite Yourcenar
  (1903-1987)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Tradução: Mário Cesariny