domingo, 4 de novembro de 2012

DAS POMBAS ESCURAS

Pelos ramos do loureiro
vi duas pombas escuras.
Uma delas era o sol,
a outra era a lua.
Vizinhitas, lhes disse eu,
- onde é minha sepultura?
Em minha cauda, o sol disse;
na minha garganta, a lua.
E eu, que ia caminhando
com terra pela cintura,
vi duas águias de neve
e uma rapariga nua.
Uma delas era a outra
e a rapariga nenhuma.
Aguiazinhas, lhes disse eu,
- onde é minha sepultura?
Em minha cauda, o sol disse;
na minha garganta, a lua.
Pelos ramos do loureiro
eu vi duas pombas nuas.
Uma delas era a outra
e as duas eram nenhuma.

Federico García Lorca
(1898-1936)
Tradução de José Bento.
 
ESTA É A TRÉGUA...


Esta é a trégua possível, merecida,
gerada no teu ventre de mulher.
Beijo, adiado, a tua face, vida!
E deixo, livre, o coração bater.


Daniel Filipe
(1925-1964)
In " A Invenção do Amor e Outros Poemas"
 FRAGA E SOMBRA


A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.

Música breve, noite longa. O alfanje
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.

Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.

E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.

Carlos Drummond de Andrade
(102-1987)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012







PAZ AOS MORTOS
 

Detestei sempre os arquitectos de infinito:
como é feio fugir quando nos espera a vida!
Nunca tive saudades do futuro
e o passado... o passado vivi-o, que fazer?!
- e não gosto que me ordenem venerá-los
se eu todo não basto a encher este presente.

Não tenho remorsos do passado. O que vivi, vivi.
Tenho, talvez, desprezo
por esta débil haste que raramente soube
merecer os dons da vida,
e se ficava hesitante
na hora de passar da imaginação à vida.

As pazadas de terra cobrindo o que já fui
sabem mal, às vezes; noutros dias
deliro quando lanço à vala um desses seres tristonhos
que outrora fui, sem querer.

Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)
In "Sempre e Sem Fim, 1937"
DESAPARECIDO

Sempre que leio nos jornais:
"De casa de seus pais desapar'ceu..."
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto de arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser meu
- Livre o instinto, em vez de coagido.
"De casa de seus pais desapar'ceu..."
Eu, o feliz desapar'cido!

Carlos Queirós
(1907-1949)
In "Desaparecido,1935"
XLV


Mordo a terra.
A terra
tem um gosto
a espanto,
tem um gosto
a vida,
tem um gosto
a suor,
tem um gosto
a estrume,
tem um gosto
a sol.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
In " Rio Sem Fim, 1984"
 REQUIESCAT
 
 
 Direi, pela noite, não ódio que tivesse 
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha, 
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá 
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha. 

Direi - não "fora!" ao mundo que me cinge 
(Outro onde o sei e como chegaria?), 
Mas dos anos de ver, pensar durando 
Retiro uma moeda de nada, 
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve, 
Compro o silêncio que se me deve 
Por ter cumprido a palavra, 
Trabalhado nas palavras, 
E por elas merecido a terra leve.
 
Vitorino Nemésio
(1901-1978)
In "Limite de Idade"
(15 de Junho de 1971)