sexta-feira, 2 de novembro de 2012

 REQUIESCAT
 
 
 Direi, pela noite, não ódio que tivesse 
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha, 
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá 
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha. 

Direi - não "fora!" ao mundo que me cinge 
(Outro onde o sei e como chegaria?), 
Mas dos anos de ver, pensar durando 
Retiro uma moeda de nada, 
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve, 
Compro o silêncio que se me deve 
Por ter cumprido a palavra, 
Trabalhado nas palavras, 
E por elas merecido a terra leve.
 
Vitorino Nemésio
(1901-1978)
In "Limite de Idade"
(15 de Junho de 1971) 

domingo, 28 de outubro de 2012

 ATERRAR...
 
 
Aterrar, espantar, amedrontar,
corromper, compelir, impor, forçar,
iludir, perverter, desvirtuar,
cuspir, espezinhar, escravizar,

embrutecer, escarnecer, violar,
humilhar, desprezar, vilipendiar,
agredir, explorar, aprisionar,
mentir, espoliar, arruinar,

bater, envilecer, atrofiar,
desiludir, rasgar, atraiçoar,
extorquir, subverter, desbaratar,

atrair, investir, encurralar,
ignorar, abortar, assassinar...
É da gente que estamos a falar.
 
Vasco Costa Marques
(1928-2006)
 




ÚLTIMO POEMA DO AMOR AUSENTE


Todo o corpo lhes dói de acertar os relógios
De momento a momento às vantagens do tempo
Meu amor meu amor tem por vezes o gosto
Do veneno sorvido ao desabar das pontes

A mais frágil aragem os confunde
O espaço aberto enreda-lhes os passos
O convívio da vida esboroa as palavras
A liberdade é um peso enorme nos seus ombros

«Tudo quanto perdi na violência do tempo
Veio hoje até mim como o espinho da flor
Como o operário morto entre o ferro e o cimento
Da construção do amor

Foi um lento e incógnito perfume
Foi um lago sem margens intransposto
Foi uma pedra vermelha de lume
O mais belo sorrir de desgosto»

Vasco Costa Marques
(1928-2006)
In "Poesia dos Dias Úteis"

sábado, 27 de outubro de 2012

 BATALHA DA SANGUESSUGA


Suga sangue, sanguessuga
suga sangue, mata a sede,
que o sangue também te suga,
que o sangue também tem sede.

Vais inchando, sanguessuga,
com meu sangue? Que me importa?



Conheço-te, sanguessuga!
Suga sangue, suga, suga,
que amanhã tombarás morta!

Rebentarás, sanguessuga,
como um odre, de repente?
morrerei eu de anemia?
Melodramaticamente?

Não no sei. Mas, sanguessuga,
morreremos nesse dia,
nasceremos nesse dia,
num segundo, para sempre!


 


António Luís Moita


In "Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa"


(1971)
SEJA ESTE  MINUTO


seja este minuto
o minuto de paz

esta palavra a palavra amiga
e a mão sem versos
poise na tua fronte

seja este minuto
o minuto de silêncio que pediste

e a vida não deu não tinha
 
Jaime Salazar Sampaio
(1925-2010)
In "O Silêncio de um Homem"
(1960)

ELEGIA EM FORMA DE EPÍSTOLA


A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem
passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história
corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio
é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros
duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.

Albano Martins
In "Coração de Bússola"
(1967)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

 OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO.


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)
In "Antologia Poética"