sábado, 20 de outubro de 2012

 CONTAS


Uma noite, quando a noite não acabava,
contei cada estrela no céu dos teus olhos;
e nessa noite em que nenhum astro brilhava

deste-me sóis e planetas aos molhos.


Nessa noite, que nenhum cometa incendiou,

fizemos a mais longa viagem do amor;

no teu corpo, onde o meu encalhou,

fiz o caminho de náufrago e navegador.


Tu és a ilha que todos desejaram,
a lagoa negra onde sonhei mergulhar,
e as lentas contas que os dedos contaram


por entre cabelos suspensos do ar -
nessa noite em que não houve madrugada

desfiando um terço sem deus nem tabuada.


Nuno Júdice
In "Contas x Contos x Cantos e Que +"

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

 QUADRAS DO ALEIXO.

Eu não sei porque razão
Certos homens a meu ver
Quanto mais pequenos são
Maiores querem parecer.

Veste bem já reparaste
Mas ele próprio ignora
Que por dentro é um contraste
Do que apresenta por fora.

António Aleixo
(1899-1949)
 PASSAMOS PELAS COISAS SEM AS VER.

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos;
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos:
como frutos de sombra sem sabor
vamos caindo ao chão apodrecidos. 


Eugénio de Andrade
(1923-2005)
SENTENÇA.

Quem pense e não aja
conforme ao que pensa
faz aos mais ofensa
e a si próprio ultraja.
Bem haja, bem haja
quem o medo vença.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
SÃO AMIGOS CAMARADAS E IRMÃOS.


São amigos camaradas e irmãos
Vão a monte aos gritos cantando
Passageiros de quilómetros vãos
com bandeiras de sonho acenando

São amigos camaradas e irmãos
Vão a monte dizendo cantigas
e são simples como as próprias mãos
grossas mãos de torcer as espigas

São amigos camaradas e irmãos
Levam fé com farnéis e amor
Passageiros de quilómetros vãos
vão pagar as promessas de dor

João Apolinário
(1924-1988)
In "O Guardador de Automóveis)
QUEM RENOVA O MISTÉRIO DA VIDA.


Quem renova o mistério da vida
Quem descobre depois o segredo
E para ganhar uma luta perdida
cava em si a coragem e o medo

Quem inventa a palavra e o amor
E procria os frutos maduros
dominando a semente e a flor
projectadas nos séculos futuros

João Apolinário
(1924-1988)
In "O Guardador de Automóveis"
(Edição de 29 e Dezembro de 1956)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

TERRA HUMANA

É inútil desistir.
Por detrás das muralhas da vontade
Mora o desejo, a força que as derruba.
Deixa que nasça, que avolume e suba
Esta maré de seiva e de ternura!
A grandeza do homem, criatura
Que cresce enquanto ama e pode amar,
É saber
Que só depois do gosto de pecar
Lhe vem o gosto de se arrepender.

Miguel Torga
(1907-1995)
Coimbra, 30 de Novembro de 1953
In "Diário VII" (1956)