quarta-feira, 3 de outubro de 2012

                        NÃO SE CANSA A NATUREZA.


                        
                         Não se cansa a natureza
                         em criar coisas em vão
                         Porque há tanto vinho e pão,
                         se faltam em tanta mesa?
                         Vivem uns de corpo erguido,
                         outros ao esforçado curvados.
                         Sonhos à razão negados,
                         à razão negais sentido.
                         Está errada a divisão
                         entre a fartura e riqueza
                         Não se cansa a natureza
                         em criar coisa em vão.
                         
                         Armindo Rodrigues
                         (1904-1993)
                          In "Breve Cancioneiro Devolvido"
 
 
 
 
 
 
 

SÍSIFO

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


Miguel Torga
(1907-1995)
In  "Diário  XIII"

FRATERNIDADE

 Não me dói nada meu particular.
Peno cilícios da comunidade.
Água dum rio doce, entrei no mar
E salguei-me no sal da imensidade.

Dei o sossego às ondas
Da multidão.
E agora tenho chagas
No coração
E uma angústia secreta.

Mas não podia, lírico poeta,
Ficar, de avena, a exercitar o ouvido,
Longe do mundo e longe do ruído.

Miguel Torga

(1907-1995)
In "Cântico do Homem"

terça-feira, 2 de outubro de 2012


 A tudo se empresta aroma.
 De tudo aroma se extrai.
 O trigo que o homem sonha
 Precede, vivo, o trigal.

 Nasce o trigo e cresce o pão
 Que no sonho se transforma.
 Só com raízes no chão
 Tem asas livres o homem.

 António Luís Moita
In " Cidade Sem Tempo"
ABDICAÇÃO

A paz que tenho,  dela abdico:
não satisfaz a minha ânsia.
– Só  a distância
me faz rico.

Que importam  velas, catedrais
para o meu sonho de partir?
– Sou  longe e mais
só com sorrir.

Lírios, amores, cavalos-de-pasta,
também os teve a minha infância.
– Só  a distância
hoje me basta.

Daniel Filipe
(1925-1964)
 






segunda-feira, 1 de outubro de 2012

 A ÁRVORE DO SILÊNCIO


Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz;
Uma ave te passe a outro país.

Coisas da terra são palavra:
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se não colhe o que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
Com a graça e o redondo de uma mão?

( Tu não te calas? Tu não te calas?!)



(5-8-1962)


Vitorino Nemésio
(1901-1978)
In  "Canto de Véspera"
E EMBORA

E embora
o teu ódio me degrede
a este inferno,
e me condene
a séculos de sede,
também te acuso, terra:

de sendo fogo
os não queimares,
de tendo vento
os não levares,
de trazeres sobre o dorso
o horror dos mares
onde eles se não somem;

de não soltares
a besta vingadora
no nosso orgulho de homens.

Carlos de Oliveira
(1921-1981)
In "A Leve Têmpera do Vento"