sábado, 15 de setembro de 2012


TODA ESSA ANGÚSTIA...


Toda essa angústia que te esmaga os ombros
Esse morder de lábios impotentes
As próprias mãos nervosas e hiantes
São a linha da fúria - fúria aos tombos
nos teus olhos encovados e ardentes
atónitos retratando os cambiantes
da vida que te pesa nos sentidos
e em que todas as bocas estão fechadas
e todos os braços estão caídos
e todas as cabeças estão vergadas

Eu te conheço como aos dedos hirtos
duma criança morta de desprêso
eu via-a eu chorei-a eu senti
a dor da mãe sem caldo e sem remédios
(louca de fúria pobre louca aos gritos
arrepelando a morte no seu seio)
enquanto os dedos flácidos e nédios
guinam o carro desse homem cheio
na esquina escura deste bairro escuro
e o pão é ensopado no vinagre

(os farois iluminam num cartaz
qualquer marca de leite condensado)

Vinagre sim que as lágrimas e o sangue
são o fel deste povo condenado

Entretanto os jornais falam de paz
e os pobres adormecem sem telhado.

João Apolinário
(1924-1988)
In "O Guardador de Automóveis"
Edição de 29 de Dezembro de 1956
-500 exemplares impressos por conta e risco do autor-
(Poema escrito conforme o original)

ACRE E DURA CARNE


Pátria onde nasci Desespera
vê-la tão seca na matriz
Acre e dura carne (austera)
no coração do meu país

Flor de saibro O rosto mole
vem da névoa cega e fria
Rastros de carro do sol
carregando o corpo do dia

Ondas de pedra –a fúria nos arcos
da voz: Morda aguente e fique!
E os pinhais –cascos de barcos
que navegaram a pique

Mentira o Fado que se toca:
Na pedra mais pedra mais secreta
abre-se e rasga-se uma boca
onde um pássaro canta e dejecta

Lá a cabra o vento o poeta
naturais de alma e corpo ao léu
trazem nos ventres o demo
e à flor dos cornos o céu

Luís Veiga Leitão
(1912-1987)
In "Ciclo de Pedras"
Edição de Maio 1964.

CARTA DE CHAMADA


Latitude Norte 1 de Janeiro

Meu irmão: porque não vieste?
Ando no mar Sou marinheiro
Mal sabes o bem que tu perdeste
Vogamos de porto em porto
Como as aves de ramo em ramo
Por isso quando te chamo
ao romper do novo ano
Sou mais livre e mais humano

E tu irmão absorto?

E tu irmão absorto
de fronte caída
nos mapas onde o mar é morto
e morta a vida?

Deixa os teus horizontes pequenos
e vem meu irmão e meu amigo
vem ver ao menos
o mar que trago comigo.

Luís Veiga Leitão
(1912-1987)
In "Ciclo de Pedras"
Edição de Maio de 1964.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012


CORREDOR

Cem metros à sombra – temperatura
de tantos corpos e almas em rodagem.
Neste muro cercado, a maior viagem
sob um céu de pedra escura.

Sombras em fila, espectros talvez,
desplantam ecos da raiz do chão.
Lembram comboios que vêm e vão
sob túneis de pez.

E vêm e vão com pés humanos
ressoando movimentos tardos,
levando fardos, trazendo fardos
das horas sem dias e meses sem anos.

E vêm e vão, sempre, sempre a rodar
na linha de railes espectrais,
sem descarregadores na gare,
sem guindastes nos cais

E vêm e vão pela via larga
das redes do sonho e da lembrança,
levando a carga, trazendo a carga
de toneladas de esperança

Luís Veiga Leitão
(1912-1987)

ITINERÁRIO


Os milhares de anos que passaram viram
a nossa escravidão.

NÓS carregámos as pedras das pirâmides,
o chicote estalou,
abriu rios de sangue no nosso dorso.
NÓS empunhámos nas galés dos césares
os abomináveis remos
e o chicote estalou de novo na nossa pele.
A terra que há milhares de anos arroteámos
não é nossa,
e só NÓS a fecundamos!
E quem abriu as artérias? quem rasgou os pés?
quem sofreu as guerras? quem apodreceu ao abandono?

E quem cerrou os dentes, quem cerrou os dentes
e esperou?

Spartacus voltará: milhões de Spartacus!

Os anos que aí vêm hão-de ver
a nossa libertação.


Papiniano Carlos

terça-feira, 11 de setembro de 2012


MORNA

É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
- subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.

Daniel Filipe
(1925-1964)
In "A Ilha e a Solidão"

OS CAMELOS


No deserto,
no deserto,

cem camelos,
mil camelos.

De longe e de perto
todos dizem ao vê-los:

- Como pode ser deserto
se está cheio de camelos?

Sidónio Muralha
(1920-1982)