terça-feira, 11 de setembro de 2012


SONETO DA METAMORFOSE


Mãos, simples mãos, moldaram os meus versos
e pés humanos pisam o que escrevo.
Aos outros que conquistem universos
e a mim que pague ao povo o que lhe devo.

Mesmo que os dias sejam adversos,
é um trevo a missão a que me atrevo,
dia e noite seus gestos são diversos
- detesta o escuro, de dia abre-se o trevo.

Abre-se como o pranto, como as fontes
que irrompem das montanhas e dos montes,
descem aos vales, vão até às casas...

Um soneto estremece a manhã cálida
e o povo, num silêncio de crisálida,
forja, no sofrimento, as suas asas.


Sidónio Muralha

(1920-1982)



segunda-feira, 10 de setembro de 2012



OS CICLISTAS



Com um surdo rumor de escavadora
ressoa no subsolo a tua voz.
Muitos tapam os ouvidos delicados.
Outros escondem-se para a não ouvir.
E outros estremecem de pavor.
Mas, rápidos, os ciclistas pedalam
na bruma dos subúrbios ao teu encontro.
Rosto baixo, mãos no guiador, pés
bem firmes nos pedais, geram
o movimento, o ritmo alado
das máquinas frágeis que cavalgam
ao amanhecer. Perpassam como espectros
sob a bruma e juntam-se, confluem,
avançam como um rio poderoso
sobre a cidade adormecida.
Os ciclistas. Os que erguem os andaimes
E fazem girar os fusos dos teares.
Os que movem as gruas. Os que transportam
O dinamite nas mãos calosas.
Os que não sabem envelhecer de tédio
à mesa do café nem vivem de mercadejar
preservativos, palavras, casas pré-fabricadas.
Os que não sonham morrer em glória
como jovens deuses trespassados na batalha.
Os que não hão-de apodrecer, como muitos de nós,
roídos de lepra e desespero.

Esses merecem bem a tua voz, Orfeu.

Papiniano Carlos
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa"
Fevereiro de 1973.

SOBRE O LUGAR DO CANTO


A mentira e seus rebentos
O ódio
espesso e a sua constelação sombria

A cólera terrível da terra
que não sustenta a raiz do espaço
e se deita na terra de boca para baixo.

A palavra que nasce sem destino.

O sangue que não semeia mais que sangue.

O pão usurpado da habitação do homem.

A caridade opaca do usurário sórdido.

A simonia da inteligência.

O medo e os seus profetas.

Um fruto triste separa-se e cede
mais débil que a sua própria podridão.

Esta é a hora, este é o tempo
- sou filho desta história-
este é o lugar que um dia
foi chão prodigioso de uma casa mais vasta.

José Ángel Valente
(1929-2000)
IN "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.

Cálice "Chico Buarque e Milton Nascimento"

Fausto " Cantiga do desemprego"

domingo, 9 de setembro de 2012


PRIMEIRO CANTAR SOBRE A ÍNDIA

Lisboa morre de fome
debaixo dos seus alpendres

a mesma fome
dos campos

o rei não paga
o que pede
de juros exorbitantes.

Quem se atreve a afirmar
que a nação se arruína?

vêm cheias de brilhantes
as naus que tornam
da Índia.

Os fidalgos trazem
escravos
e sapatos de pelica.

O pão não canta
no campo
nem os homens nas ruínas.

Que faz o rei
pelos campos donde os homens
se afugentam?

Lisboa constrói
a fome

e os fidalgos
opulentos.

A cânfora e a cambraia
não alimentam o povo

que faz o rei
da fazenda
e das rendas do tesouro?

Saem os homens
sedentos
das naus que vão para a Índia.

Lisboa constrói
a fome

E os campos sem homens
quem será que os afirma?

Maria Teresa Horta

In "Cancioneiro da Esperança"

Seara Nova 1971


BONÉ DE PALA DESFEITA


Boné de pala desfeita
Um estigma de servidão
Coroa de espinhos ferrada
dolorosamente estreita
profundamente marcada
na palma da tua mão

A cabeça inclinada
e uma moeda no chão

João Apolinário
(1924-1988)
in" O Guardador de Automóveis)
Porto 1956.