sábado, 7 de abril de 2012

Carlos de Oliveira


CANTIGAS

1/ O VIANDANTE



Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu,miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu,miséria, ficaste.
Foi-se a noite,foi-se o dia,
fugiu a cor ás estrelas:
nesta negra solidão,
só tu,miséria, nos velas.

Carlos de Oliveira
(1921-1981)
In "Cancioneiro da Esperança"
1ª Edição Seara Nova (1971)
(Antologia organizada por Maria Teresa Horta e José Carlos Ary dos Santos)

Armindo Rodrigues


NÃO OLHO PARA NADA DE OLHOS PLÁCIDOS.


Não olho para nada de olhos plácidos.
Em cada pensamento estou inteiro.
Inteiro estou na minha vã presença
e, tão inteiro como em mim, em tudo.
Choram rios de angústias e de espanto
na voz cortante e baça com que choro.
Cantam milhões de risos e certezas
na voz vermelha e doce com que canto.
Sangram milhões de chagas se protesto.
A cada instante morro e reverdeço.
Quanto mais fundo no mundo me enraízo
tanto mais em mim mesmo me conheço.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
In "A Esperança Desesperada"
1ª Edição (Coimbra 1948)
Dedicado "Ao Carlos de Oliveira e ao Joaquim Namorado"

Armindo Rodrigues


RUMO


Ergue-se do fundo
do mundo em mim
tudo o que penso.
Pensar é ir
e o que sou
alegremente
o aceito e quero.

Ao pé do imenso
espanto de existir
o resto é zero.

Tudo procuro
sem crer em nada
definitivo,
com o motivo
exacto e duro
de tudo querer
compreender.

Pensar é ir.
Ir é ser.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
In "A Esperança Desesperada"
1ª Edição de 1948
Com Dedicatória "Ao Carlos Oliveira e ao Joaquim Namorado"

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Eugénio de Andrade


ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

Bento de Jesus Caraça


“Se não receio o erro, é porque estou sempre disposto a corrigi-lo”

Bento de Jesus Caraça
(1901-1048)

José Régio


SABEDORIA


Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . .
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

José Régio
(1901-1969)
in "Poemas de Deus e do Diabo"

domingo, 1 de abril de 2012

José Régio


O PAPÃO

Atrás da porta, erecto e rígido, presente,
Ele espera-me. E por isso me atrapalho,
E vou pisar, exactamente,
A sombra de Ele no soalho!

-"Senhor Papão!"
(Gaguejo eu)
"Deixe-me ir dar a minha lição!
"Sou professor no liceu..."

Mas o seu hálito
Marcou-me, frio como o tacto duma espada.
E eu saio pálido,
Com a garganta fechada.

Perguntam-me, lá fora: "Estás doente?"
- "Não!", (grito-lhes)... "porquê?!" E falo e rio, divertindo-me.
Ora o pior é que há palavras em que paro, de repente,
E que me doem, doem, doem..., prolongando-se e ferindo-me...

Então, no ar,
Levitando-se, enorme, e subvertendo tudo,
Ele faz frio e luz como um luar...
E ouço-lhes o riso mudo.

- "Senhor Papão!"
(Gaguejo eu) "por quem é,
"Deixe-me estar aqui, nesta reunião,
"Sentadinho, a tomar o meu café...!"

Mas os mínimos gestos e palavras do meu dia
Ficaram cheios de sentido.
Ter de mais que dizer..., ah, que maçada e que agonia!
Bem natural que eu seja repelido.

Fujo. E na minha mansarda,
Volvo-lhe: - "Senhor Papão!
"Se é o meu Anjo-da-Guarda,
"Guarde-me!, mas de si! da vida não."

O seu olhar, então, fuzila como um facho.
Suas asas sem fim vibram no ar como um açoite...
E até no leito em que me deito o acho,
E nós lutamos toda a noite.

Até que, vencido, ímbele
Ante o esplendor da sua face,
De repente me prostro, e beijo o chão diante de Ele,
Reconhecendo o seu disfarce.

E rezo-lhe: - "Meu Deus! perdão...: Senhor Papão!
"Eu não sou digno desta guerra!
"Poupe-me à sua Revelação!
"Deixe-me ser cá da terra!"

Quando uma súbita viragem
Me faz ver (truque velho!...)
Que estou em frente do espelho,
Diante da minha imagem.


José Régio
(1901-1969)