terça-feira, 20 de março de 2012

Armindo Rodrigues


CANTA UM GALO.


Canta um galo empoleirado
numa nuvem de algodão.
De olhos de charneca rasa
e voz de cravo encarnado,
o Sol vai pelos caminhos
e leva o chapéu ao lado.
Vai com modos de navalha
pelos caminhos do céu.
É-lhe uma fogueira o sangue
e leva ao lado o chapéu.
Numa cruz de sete ventos
onde a esperança se perde
está uma cigana verde
com sete rosas na mão.
Vem o Sol, dá-lhe um braço.
Caem-lhe as rosas no chão.
À sombra de uma oliveira
soa uma flauta de cana.
Caem-lhe no chão as rosas.
Rangem-lhe os folhos da saia.
No desmaio da cigana
a voz da flauta desmaia.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Mário Viegas diz Álvaro Feijó

Álvaro Feijó


NATAL


Foi numa cama de folhelho,
entre lençóis de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas
postas até ao fundo do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

Álvaro Feijó
(1916-1941)

Pablo Neruda


O PAI


Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda
(1904-1973)
in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage.

domingo, 18 de março de 2012

Robert Louis Stevenson


AMOR


AMOR — O que é o amor? Um grande coração que dói
E nervosas mãos; e silêncio; e longo desespero.
Vida — o que é a vida? Um pântano deserto
Onde chega o amor e de onde parte o amor.

Robert Louis Stevenson
(1850-1894)

Sebastião da Gama


CANÇÃO DA GUERRA



Aos fracos e aos covardes
não lhes darei lugar
dentro dos meus poemas.
Covarde já eu sou.
Fraco, já o sou demais,
e se entre fracos for
me perderei também.

Quero é gente animosa
que olhe de frente a Vida,
que faça medo à Morte.
Com esses quero ir,
a ver se me convenço
de que também sou forte.
Quero vencer os medos...
Vencer-me — que sou poço
de estúpidos terrores,
de feminis fraquezas.
Rir-me das sombras,
rir-me das velhas ondas
bravas, rir-me do meu temor
do que há-de acontecer.

Venham comigo os fortes...
Façam-me ter vergonha
das minhas covardias.
E de seus actos façam
(seus actos destemidos)
chicotes p’rós meus nervos.
Ganhe o meu sangue a cor
das tardes das batalhas.
E eu vá — rasgue as cortinas
que velam o Porvir.
Vá — jovem, confiado,
cumprindo o meu destino
de não ficar parado.

26/5/1946
Sebastião da Gama
(1924-1952)

Daniel Filipe


SOMOS A ALEGRIA O CORPO O SAL DA TERRA

Somos a alegria o corpo o sal da terra
o sol das manhãs férteis a música do outono
a própria essência do amor a força das marés
somos o tempo em marcha


Esta é a única verdade
sabemos que vos é difícil aceitá-la
envoltos como estais em suborno e usura
bancos alta finança empréstimos externos
E no entanto esta manhã um pássaro
pousou à vossa beira embora
inutilmente
A pequena dactilógrafa matou-se
nós sabemos porquê

Um carpinteiro desempregado rasgou a roupa
e saiu cantando para a rua
nós sabemos porquê

Uma noite
a jovem costureira não voltou para casa
nós sabemos porquê

Um poeta
roeu as unhas enquanto foi possível
mas faltou-lhe a coragem no momento derradeiro
nós sabemos porquê


Nós sabemos porquê

NÓS SABEMOS PORQUÊ


E no entanto é doce dizer pátria
sonhar a terra livre e insubmissa
inteiramente nossa
Sonhá-la como se pedra a pedra construíssemos
Como se nada houvesse antes de nós
e desde as fundações a erguêssemos completa
pura alegre acolhedora virgem
de medos mortos insepultos

Regresso pelo tempo ao dia de hoje
primeiro de Maio de 1962
hora segunda da meditação

Daniel Filipe
(1925-1964)