sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Luís Veiga Leitão


SOL


Tu que pões o oiro da doçura
na miséria de um fruto amargo
e na ruga duma pedra escura
o sorriso largo,
hoje
como são estranhas e raras
e roxas e cruas
as nossas mãos, amigo!

-Roubaram-lhe a cor do trigo
estes ladrões das searas.

Luís Veiga Leitão
(1912-1987)
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa"

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Gabriel Okara



ADHIAMBO

Eu ouço muitas vozes
como dizem que um louco ouve;
eu ouço as árvores falarem
como dizem que um curandeiro ouve.

Talvez eu seja um louco,
eu seja um curandeiro.

Talvez eu seja louco,
pois as vozes tentam-me,
incitam-me desde a lua da meia noite e do silêncio da minha secretária
a caminhar na crista das ondas, atravessando o mar.

Talvez eu seja um curandeiro
que ouve seivas falantes,
que vê através das árvores
mas que perdeu os seus poderes
de invocação.

Mas as vozes e as árvores
convocam agora um nome e uma figura
esboçada em silêncio, que na
face da lua caminha, passando
sobre continentes e mares.

E eu levantei a minha mão,
a minha mão trémula, agarrando
o meu coração como um lenço
e acenei e acenei – e acenei -
mas ela desviou o olhar.


Gabriel Okara
Nigéria (n.1921)
Trad. de José Alberto Oliveira
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Egito Gonçalves


ENGANAM SOB A APARÊNCIA DOMÉSTICA...



«ESTES CÃES SÃO FEROZES» devia
estar escrito. Nada porém
desvenda à luz o facto,
o vau por onde escapar
aos colmilhos das feras.
Impunes, disfarçados,
organizam a ofensa
e a uma esquina, súbita,
a mordedura colhe-te.
Nada fizeste e és já
poeira na aluvião.

Alguns contravenenam, ganham
o preço do resgate, musculam
a cinza dos dedos mutilados.

Deviam inverter as grades. Deviam
estar abertos os caminhos.
Deviam ser mantidos em curto-
circuito, ali, entre os arames,
rotulados, bem longe: «CÃES
FEROZES: PERIGO!»


Egito Gonçalves
(1920-2004)
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa"

Cintio Vitier


CONFISSÃO


Bem que eu não saiba história, ou muito pouca, sou
o autor destas páginas.

Tudo me aconteceu desde o princípio.
Sou o protagonista,
a vitima, o culpado e o carrasco.

Sou o que olha e o que actua.
As idades descansaram em mim.
Os dias foram o meu alimento.
As ideias, minhas asas,
meus punhais.

Pelo vazio de minhas mãos passou
o rio das armas.

Meus olhos são os fornos em que ardeu
a criação inteira.

Meu canto é o silêncio.

Homem, mulher, criança, ancião,
cada gesto meu treme nas estrelas
atravessando o tempo irrepetível

Eu sou. Não busquem outro,
não torturem outro,
não amem outro.

Não tenho maneira de escapar.

Cintio Vitier
((1921-2009)
in "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad. de José Bento.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Claudio Rodríguez


NOITE ABERTA


Bem-vinda a noite para quem vai seguro
e com os olhos claros olha sereno o campo,
e com a vida limpa olha com paz o céu,
sua cidade e sua casa, sua família e obra.

Mas de quem vacilante anda e vê sombra, sê duro
cenho do céu e vive o castigo de sua terra
e a malevolência de seus seres queridos,
inimiga é a noite e sua piedade acosso.

E ainda mais neste páramo de tão alta Rioja,
onde se abre com tal claridade que deslumbra,
tão próxima palpita que muito assombra, e muito
penetra na alma, fundamente a perturba.

Porque a noite sempre, como o fogo, revela,
melhora, pule o tempo, a oração o soluço,
dá pureza ao pecado, limpidez à lembrança,
castigando e salvando toda uma vida inteira.

Bem-vinda a noite com seu belo perigo.

Cludio Rodríguez
(1934-1999)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad. de José Bento.

Primo Levi


VÓS QUE VIVEIS TRANQUILOS

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais forças para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara.

Primo Levi
(1919-1987)

Sophia Mello Breyner Andresen


NAQUELE TEMPO


Sob o caramanchão de glicínia lilás
As abelhas e eu
Tontas de perfume

Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)