domingo, 1 de janeiro de 2012

Gal Costa canta "Nevoeiro" de Fernado Pessoa.

Fernando Pessoa


NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa
(1888-1935)

José Carlos Ary dos Santos


NA PASSAGEM DE UM ANO.


Erros nossos não são de toda a gente
Tropeçamos às vezes na entrega
Mas retomamos sempre a marcha em frente
Massa humana que nada desagrega.

Para nós o passado e o presente
São futuro no qual o povo pega
Com suas mãos de luz incandescente
Que aquece que deslumbra mas não cega.

Para nós não há tempo. O tempo é vento
Soprando ano após ano sobre a história
Que para nós é vida e não memória.

Por isso é que no tempo em movimento
Cada ano que passa é meu tempo
Para chegar ao tempo da vitória.

José Carlos Ary dos Santos
(1937-1984)

Retalhos da vida de um médico. Ary dos Santos / Carlos do Carmo.

Eugénio de Andrade


FECUNDOU-TE A VIDA NOS PINHAIS...


Fecundou-te a vida nos pinhais.
Fecundou-te de seiva e de calor.
Alargou-te o corpo como os areais
onde o mar se espraia sem contorno e cor.

Pôs-te sonho onde havia apenas
silêncio de rosas por abrir,
e um jeito nas mãos morenas
de quem sabe que o fruto há-de surgir.

Brotou água onde tudo era secura.
Paz onde morava a solidão.
E a certeza de que a sepultura
é uma cova onde não cabe a coração.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

Luís Cília Canta Eugénio e Andrade.