domingo, 18 de dezembro de 2011

Vieira da Silva


AMANHÃ SE TU QUISERES.



amanhã
se tu quiseres
vamos fazer desta terra
a nossa pátria sonhada

vamos
rasgar esta névoa
de esperança disfarçada
que não há nada a esperar
se nunca fizermos nada

vamos
quebrar o silêncio
com a força da coragem
e avançar contra o medo
que nos impede a viagem

vamos
antes que o futuro
não seja mais que a saudade
das cantigas que deixámos
pelas ruas da cidade

amanhã
se tu quiseres
vamos fazer um país
com a cor da liberdade

Vieira da Silva.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Octavio Paz


SILÊNCIO


Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz
(1914-1998)
In "Liberdade sob Palavra"
Tradução de Luis Pignatelli

domingo, 4 de dezembro de 2011

PROIBIDÃO- Bonde do 1533.

Fernando Pessoa / Alberto Caeiro


O MEU OLHAR...


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
(1888-1935)
In "O Guardador de Rebanhos" (8-3-1914)

Federico García Lorca


CHAGAS DE AMOR


Esta luz, este fogo que devora.
Esta paisagem gris que me rodeia.
Esta mágoa por uma só ideia.
Esta angústia de céu, de mundo e hora.

Este pranto de sangue que decora
Lira sem pulso já, lúbrica teia.
Este peso do mar que me golpeia.
Este lacrau que no meu peito mora.

São grinalda de amor, cama de ferido,
Onde, sem sono, sonho-te a presença
Entre as ruínas do peito meu sumido;

e embora eu busque o cume de prudência
dá-me teu coração vale estendido
com cicuta e paixão de amarga ciência

Federico García Lorca
(1898-1936)
In "Antologia Poética"
Trd. de José Bento.

Daniel Filipe


EM TEU MACIO OLHAR.


Em teu macio olhar repousa o meu.
E na face polida, assim formada
se reflecte e recria o próprio céu.

Daniel Filipe
(1925-1964)
In "A Invenção do amor e outros poemas"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Carlos Drummond de Andrade


FRAGA E SOMBRA


A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.

Música breve, noite longa. O alfanje
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.

Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.

E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)