terça-feira, 8 de novembro de 2011

Albano Martins


SÃO ESTAS AS CORES.


Se alguém tens
de agradecer, agradece
primeiro a vida.Por isto,
quanto mais não seja: por teres
nascido de pé e de pé
resistires aos temporais
como as árvores
de raízes fundas.Como a elas,
só te arrancarão à força.Podem,
então, encher-te a boca
de terra os olhos olhos
de sal.São estas
as cores da vergonha.

Albano Martins
In "As Escarpas do Dia"
(Poesia 1950-2010)

Albano Martins


A MESMA CANÇÃO


A sensação que tens
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.

Albano Martins
In "As Escarpas do Dia"
(Poesia 1950-2010)

Bento de Jesus Caraça


O HOMEM CULTO.

«O que é o homem culto?

É aquele que:

Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.»


Bento de Jesus Caraça(1901-1948), na conferência, «A cultura integral do indivíduo, problema central do nosso tempo», proferida em 25 de Maio de 1933, na inauguração da actividade da União Cultural «Mocidade Livre»

Albano Martins


AS PALAVRAS DO PAI

Olha, meu filho, esta
é a árvore
da vida. Crescerás
com ela. Às vezes
nos seus ombros colherás
lágrimas em lugar
de frutos, mas
é nos ramos mais altos
que o sonho mora
e a liberdade floresce.

Albano Martins
In "As Escarpas do Dia"
(Poesia 1950-2010)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Mário Dionísio


A SEIVA OCULTA


Quantas vezes estremeço
e quantas vezes nasço
Quantas vezes desfaleço
e quantas vezes renasço


Julgo-me o fim desisto e sofro tudo negro
caem-me os braços magros ao longo dos pensamentos
canto a morte e o mistério e os requintes eternos

Mas logo uma energia insuspeitada vem dos longes
de mim mesmo
e aquece humanamente o coração
à beira de parar

Julgam-te morto e afinal,
é apenas o passo atrás que dás
para avançar

Milhões de forças claras sempre alerta
milhões de vozes fortes sempre à espreita
milhões de risos brancos sempre à espera
sob a capa lodosa dos aspectos da hora enegrecida

Maior que os deuses e que a sombra dos deuses
maior que o medo dos deuses
Homem
o teu destino é modelar os montes e soprar as nuvens
mudar o curso dos rios e o coração dos homens
para a vida

Quantas vezes estremeces
e quantas vezes nasces
Quantas vezes desfaleces
e quantas vezes renasces


Mário Dionísio
(1916-1993)
in "As Solicitações e Emboscadas"

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Manoel de Barros


O CASACO


Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social.
Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado
e sujo.
Tentou sair da angústia.
Isto ser:
Ele queria jogar o casado rasgado e sujo no
lixo.
Ele queria amanhecer.

Manoel de Barros
In "Poesia Completa"

Manoel de Barros


O OLHAR


Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
De águas
De árvores
De aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.

Manoel de Barros
In "Poesia Completa"