quarta-feira, 5 de outubro de 2011

José Régio


GRANDE GUERRA


Podes roubar-me o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come ou não come.
Porém, como roubar a inextinguível Fome?

Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.

Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me, até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.

Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal... e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...

Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo-me as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...

Podes cobrir-me o nome de impropérios;
Tu, que és senhor de impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama
Não brilha o sol na própria lama?

Podes tirar-me a paz, a saúde, e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
Que ao Cristo lhas tiraram,
Perderam-se e O ressuscitaram.

Podes, ás minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo o que fazes?

És sempre o mesmo, tu, cujas razões supremas
São mordaças, grilhões, vendas, algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.

Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
“Filho, vem até mim!
“A História principia onde eles põem: fim.”

José Régio
(1901-1969)
In "Cântico Negro"

Fernando Pessoa


SONHO. NÃO SEI QUEM SOU.


Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

Fernando Pessoa
(1888-1935)
In "Cancioneiro"

Fernando Pessoa / Alberto Caeiro


EU SOU DO TAMANHO DO QUE VEJO.


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Fernando Pessoa / Alberto Caeiro
(1888-1935)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

João Rui de Sousa


FOME


Pudessem minhas mãos falar às tuas
e dizer-lhes: sim, quero-te muito.
Pudesse eu inundar-te de ternura
e no silêncio ter-te, ampla e desnuda.
Que eu não faria versos sobre mim,
nem falaria em rosas, alma, lua.

Pudesse o meu olhar adormecer-te,
colher-te, fresca e firme, a forma viva.
Que coisas não faria nesta vida?
Que coisas não seria?

João Rui de Sousa
In "Circulação"

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Alberto de Lacerda


REGRESSO

Não vim à procura de nada
Nem de saudades que não tenho
Nem de carga do tempo perdido
Nem de conflitos sobrenaturais
Do tempo e do espaço

Amei desde criança
Certas coisas que não choro
Fui a pureza deslumbrada que não volta jamais
O vidro sem ranhura que o sol atravessa
A pureza
Que me deixou feridas imortais

Vim para ver
Para ver de novo
Para contemplar sem perguntas
Não vim à procura de nada
Não me perguntem por nada
Um rio não se interroga
O vento não se arrepende

Alberto de Lacerda
(1928-2007)

domingo, 25 de setembro de 2011

Fernando Lemos


QUANDO MORRE UM AMIGO...


Quando morre um amigo
os telhados descem de nível
para fugirem torres de moscas
e o ar mastigar o nervo da língua

perdem-se as mãos nos bolsos
com vergonha
e o vento arranha o pente dentro dos cabelos moles

os animais engolem ninhos nos museus
e vão romper as estradas de couraças roídas

quando morre um amigo
caem por copos os sobejos da Natureza
os acordeões de barro ficam mesmo roucos
e suspendem-se no quarto com cheiro a farmácia

morre um amigo
e é um fim de espectáculo

rolam as solas de madeira sobre a borracha
vêm os corvos urinar nos crânios dos deuses

estabelece-se uma enorme ventania
desenhando ladrilhos entre ossos
gritam mulheres deitando espelhos ao mar
enquanto as crianças mudam apenas de jardim:
é o ninguém baixar quando rolam as moedas

quando morre um amigo sinto vergonha

as bruxas de custódia em punho
dão horas particulares
e os cais motorizados fortificam-se
quando morre um amigo

ficam as nuvens de fora do alcance do azul
perco a condução
encosto o nariz na vitrina comercial
ocultando com o andaime as feridas
com que a vida me costuma vacinar

olho o céu quando morre um amigo
para criar um abismo entre dois pés
olho as paredes que são sempre quatro
e cabe-me a vida dentro de um copo
sobejos da Natureza

o frio vem tarde nas torneiras distantes
sempre que morre um amigo

sempre que morre um amigo
é um fim de espectáculo

Fernando Lemos
In "Teclado Universal"

António Reis


NÃO ESQUEÇO OS MORTOS...


Não esqueço os mortos

Não esqueço os heróis

Não esqueço
o luto
das famílias

todos silenciosos

Denuncio
publicamente
a nossa cobardia

e quem mente

António Reis
(1927-1991)
In "Poemas Quotidianos"