terça-feira, 6 de setembro de 2011

José Moreno Villa


CANÇÃO


Cinza e cor de amora
é meu verde olival;
branca a minha casa
e azul o meu mar.

Quando tu chegares,
não me hás-de encontrar;
eu serei um pássaro
do verde olival.

Quando tu chegares,
não me hás-de encontrar;
serei uma chama
rubra do meu lar.

Quando tu chegares,
não me hás-de encontrar;
serei uma estrela
em cima do mar.

José Moreno Villa
(1887-1955)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.

domingo, 4 de setembro de 2011

Cristovam Pavia


SERRA


Andam velhos sobressaltos
Descaindo destas rochas,
E advinha-se uma tontura desgrenhada
Na paisagem rude.
A xara tão sensual
Lembra-me com seu perfume
Passados sonhos sonhados
Por algum solitário pastor.
Tenho o súbito desejo
De ficar aqui parado,
De ficar aqui estupidamente à espera
Que a minh'alma se confunda com a alma da serra,
E que o meu corpo se transforme num sólido bloco de granito.

Cristovam Pavia
(1933-1968)
In "Poesia"

Cristovam Pavia


LITANIA DA RUA DOS FANQUEIROS



Ó porque será este chulé ibérico
Em Espanha é pitoresco mas aqui é pindérico
Ó Rua dos Fanqueiros
Ó Salazar com teu rebanho de sacristas
Pensar que isto já foi terra de sardinha assada e de fadistas
Ó Rua dos Fanqueiros
Ó Lisboa ó Lisboa enjoada e indecente
Ó cidade sifilítica, são carochas ou gente?
Ó Rua dos Fanqueiros
Ó Portugal minha pátria de meia-tigela
- Aqui para nós, passa-se tão bem sem ela!

Cristovam Pavia
(1933-1968)
In "Poesia"

Cristovam Pavia


O XERIFE


Trouxeram um esquife
E meteram-no dentro
Com ordem do xerife
P’ra bom isolamento.

Antes ali xerife
Do que em cidades foscas
No género de Lisboa:
Pasmo, calor e moscas.

Cristovam Pavia
(1933-1968)
In "Poesia"

sábado, 3 de setembro de 2011

Juan Ramón Jiménez


SOLIDÃO


Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas vão, como os meus pensamentos
e vêm, vão e vêm
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!

Juan Ramón Jiménez
(1881-1958)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.

Alfonso Costafreda


COMO UMA CASA


Como uma casa grande e sem ninguém
ficou meu coração cheio de frio.

A alegria e os sonhos, a esperança,
com as primeiras folhas já partiram.

Talvez ainda regresse a primavera,
não chegará seu tempo para o meu.

Alfonso Costafreda
(1926-1974)
In " Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.

Alfonso Costafreda


AS PALAVRAS


Pedras preciosas para o entendimento,
diamantes de realidade.

Se vão em sonhos perdem o seu brilho,
sua luminosa verdade.

Palavras vivas, que ninguém as toque
se não souber cuidá-las.

Alfonso Costafreda
(1926-1974)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.