segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Urbano Tavares Rodrigues




CANÇÃO DO SOLDADO NO CERCO DO PORTO

Sete balas só na mão
Já começa a amanhecer
Sete flores de limão
Para lutar até vencer
Sete flores de limão
Para lutar até morrer

Já estremece a tirania
Já o sol amanheceu
Mil olhos tem o dragão
Há chamas de oiro no céu

Abre no peito o luar
Companheiros acercai-vos
Arde em nós a luz do dia
Companheiros revezai-vos

Já o rouxinol cantou
Tomai o nosso estandarte
No seu sangue misturado
Já não há desigualdade

Sete balas só na mão
Já começa a amanhecer
Sete flores de limão
Para lutar até morrer.

Urbano Tavares Rodrigues
In "O Nosso Amargo Cancioneiro"

Sidónio Muralha


INTERROGAÇÃO E RESPOSTA


...E todas as tardes, e todas as manhãs
e todas as noites os homens morriam...
choravam as mães, as mulheres, as irmãs,
choravam os olhos que já os não viam...

E em todos os campos, e em todos os mares,
e em todas as ruas, e em todos os portos,
nas cadeiras vazias de todos os lares
perguntam os mortos porque foram mortos.

A que sol murcharam as promessas largas?
Que neblina esconde a terra prometida?
Que marcou a cinza tantas horas amargas,
no imenso quadrante do relógio da vida?

Palavras moldadas no barro do engano,
promessas de tudo trocadas em nada,
frases apagadas como apaga o oceano
os passos de um homem na areia molhada.

...E em todos os campos, e em todos os mares,
e em todas as ruas, e em todos os portos,
nas cadeiras vazias de todos os lares
perguntam os mortos porque foram mortos...

E nós que sabemos a verdade, e sentimos
para lá das falas das razões, dos motivos,
-provemos aos mortos que não os traímos,
Devolvendo aos vivos a terra dos vivos.

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Companheira dos Homens"
(Conforme o original publicado em 1950)

Sidónio Muralha



PEQUENOS DEUSES CASEIROS



Pequenos deuses caseiros que brincais aos temporais,
passam-se os dias, semanas, os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.

Pequenos deuses caseiros, cantai cantigas macias
tomai vossa morfina, perdulai vossos dinheiros,
derramai a vossa raiva, gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.

Erguei vossos castelos, elegei vossos senhores,
espancai vossos criados, violai vossas criadas,
e bebei, bebei o vinho dos traidores
servido em taças roubadas

Dormi em colchões de penas, dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem, alteai vossas janelas,
e trancai vossas portas, pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.

Que é sempre um dia a menos este dia que passa,
e cada dia a mais aumenta o preço da traição,
e cada dia a mais aumenta o preço da desgraça,
e a nossa moeda não é piedade nem perdão
porque foi temperada com todas as lágrimas da raça.
Não, pequenos deuses caseiros, não!

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Companheira dos Homens"
(Conforme o original de 1950).

Reinaldo Ferreira


DESDE QUANDO ALGUMA VEZ ANOITECEU


Desde quando alguma vez anoiteceu
E à angústia de que a terra se cobriu
Só pasmo nas esferas respondeu;
Desde quando alguma flor emurcheceu
E a criança que válida se ria
De repente calada apodreceu;
Desde quando a algum estio sucedeu
Um outro outono e a árvore se despiu
E a primeira cabeça encaneceu;
Desde quando alguma coisa que nasceu
Sem que o pedisse, sem remédio se degrada
E acaba, sob a terra que a comeu,
Dispersa entre os átomos dispersos,
Se acumula a tristeza deste dia
E a razão destes versos.

Reinaldo Ferreira
(1922-1959)

Reinaldo Ferreira


É PELA TARDE, QUANDO A LUZ ESMORECE.


É pela tarde, quando a luz esmorece
E as ruas lembram singulares colmeias,
Que a alegria dos outros me entristece
E aguço o faro para as dores alheias.

Um que, impaciente, para o lar regresse,
As viaturas que se cruzam cheias
Dos que fazem da vida uma quermesse,
São para mim, faminto, odor de ceias.

Sentimento cruel de quem se afasta,
Por orgulho repele, e se desgasta
No esforço de fugir à multidão.

Mas castigo de quem, por imprudente,
Já não pode deter-se na vertente
Que vai da liberdade à solidão.

Reinaldo Ferreira
(1922-1959)
In "Um voo cego a nada"

Rosalia de Castro


ERA CRIANÇA E JÁ PERDERA...


Era criança e já perdera
o hábito de chorar;
a miséria seca a alma
e até os olhos faz secar.
Era criança e parecia
pelos feitos velho já.

Experiência de mendigo!
Precoce és como o mal,
implacável como o ódio,
como a verdade brutal!

Rosalia de Castro
(1837-1885)
In "Antologia Poética / Cancioneiro Rosaliano")

Rosalia de Castro


AMO-TE...PORQUÊ ME ODEIAS?...


Amo-te...Porquê me odeias?
-Odeio-te...Porquê me amas?
Segredo é este o mais triste
e misterioso das almas.

Mas é verdade...Verdade
dura e nos chicoteia!
-Odeias-me porque te amo;
amo-te porque me odeias.

Rosalia de Castro
(1837-1885)
in "Antologia Poética / Cancioneiro Rosaliano)