domingo, 31 de julho de 2011

Sidónio Muralha


CAPOEIRA


Sacudindo sùbitamente o silêncio e o sono, um galo
anunciou alegremente a madrugada.
E bom será declará-lo:
aquilo não foi um canto, foi um grito
vibrando como um dardo. Um grito
lúcido, largo, límpido como a madrugada...

Na impossibilidade de ser julgado o galo
o dono vai responder pelo delito.

Mais nada.

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Companheira dos Homens"

Manuel Freire canta Sidónio Muralha "Pequenos deuses caseiros"

sábado, 30 de julho de 2011

Sidónio Muralha Cantado por Beto Capeletto.

Eugénio de Andrade


ADEUS


Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)
In "As Palavras Interditas"

Sidónio Muralha


CERTEZA


Não nos responde o céu cinzento e opaco
nem o sorriso de pedra e impenetrável dos nichos...

- só nós sabemos porque vivemos num buraco
encurralados como bichos.

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Companheira dos Homens"
Edição de 1950.

Sidónio Muralha


COMPATRIOTA


Que todos os meus anseios de poeta
possam cair no teu regaço,
velha lutadora, velha analfabeta
que não sabes dos versos que te faço!

Vejo-te de joelhos,
de joelhos e de mãos postas,
de joelhos e de mãos postas num velho esfregão
lavando, lavando casas...
A tua cabeça branca é uma acusação
- passa um poeta - e a acusação tem asas.

Velha que conheceste algumas gerações
e devias ser tratada como os doentes e as crianças
- atira o teu esfregão contra os nossos corações
e grita nos meus versos agudos como lanças!

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In"Companheira dos Homens"
Edição de 1950.

Sidónio Muralha


ORDEM DO DIA


Homens novos temperados pela guerra,
das fábricas enormes e cinzentas
- rasgai poemas na terra
com as vossas ferramentas!

Homens das oficinas e dos cais,
dos campos e da faina sobre o mar
- porque não ensinais
os poetas a cantar?

Algemados - não importa por que leis -
seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
vinde dizer o que sabeis!
- Por agora é quanto basta.

Vinde das minas, dos fornos, das caldeiras,
vergados da descarga do carvão!
Vinde! Porque chegou enfim o dia
de apressar a tarefa inconcluída!

- E a poesia, esta poesia,
é um facho que vai de mão em mão
pelos caminhos da vida.

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Companheira dos Homens"
(Tipografia Garcia & Carvalho em 1950)
(Uma capa bonita da autoria de Júlio Pomar)