segunda-feira, 27 de junho de 2011

Rabindranath Tagore


SE É ASSIM QUE DESEJAS


Se é assim que desejas,
se for assim do teu gosto,
cessarei de cantar!
Se com isso agitar
teu coração,
do meu olhar o triste brilho
desviarei do teu rosto...
E se eu de súbito, te assustar
no teu passeio despreocupado,
afastar-me-ei do teu lado
e tomarei outro brilho...

Se eu te embaraçar - ai de mim -
quando teceres as tuas flores,
flor encantada,
esquivar-me-ei do teu
solitário jardim
e da tua doce imagem...
E se eu tornar a água turva
e agitada,
jamais remarei a minha barca
para a tua margem..."

Rabindranath Tagore
(1861-1941)
Trad. de Victor de Sá Coelho
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"

domingo, 26 de junho de 2011

Fausto e Zeca Afonso cantam Eugénio de Andrade " Não canto porque sonho "

Eugénio de Andrade


NÃO CANTO PORQUE SONHO.


Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
ao vê-los nus e suados.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)
In "As Mãos e os Frutos"

Jorge de Sena


COMO DE SÚBITO NA VIDA.


Como de súbito na vida tudo cansa!
e cansa-nos a vida e nos cansamos dela,
ou ela é quem se cansa de nós mesmos,
na teima de existir e desejar?
Porque, neste cansaço, não o que não tivemos,
ou que perdemos, ou nos foi negado,
o que de que se cansa, mas também
o quanto temos, nos ama, se nos dá
a até os simples gozos de estar vivo.
Um dia é como se uma corda se quebrara,
ou como se acabara de gastar-se,
que nos prendia a tudo e tudo a nós.
Não é que as coisas percam importância,
as pessoas se afastem, se recusem,
ou nós nos recusemos. Não.é mais
ou menos que isto- se deseja igual
ao como até há pouco desejávamos.
É talvez mais. Mas sem valor algum.
O dia é noite, a noite é dia, a luz
se apaga ou se derrama sobre as coisas
mas elas deixam de ter forma e cor,
ou se sumir no espaço como forma oculta.
E o que sentimos é pior que quanto
dantes sentíamos nas horas ásperas
da fúria de não ter ou de ter tido.
Porque se sente o não sentir. Um tédio
Não como o tédio antigo. Nem vazio.
O não sentir. Que cansa como nada.
Até dizê-lo cansa. É inútil. Cansa.


Jorge de Sena
(1919-1978)

José Gomes Ferreira


Ó PINHEIRO...


Ó pinheiro
verdadeiro,
estou farto
do teu cheiro
tão bom a caruma,
mas que encobre
com pássaros e bruma
o suor da gente pobre.

Prefiro os pinheiros
da minha imaginação
com ramos cheios de astros
e ventos à solta
-a brandirem nos mastros
bandeiras de lágrimas de revolta.

José Gomes Ferreira
(1900-1985)
In "Poesia-III"

sábado, 25 de junho de 2011

Armindo Rodrigues


DESPENTEIA OS CABELOS


Despenteia os cabelos e sorri-me,
minha alta e constante namorada.
Embora talvez isso seja um crime
enquanto o mundo mau se não redime,
agora quero não pensar mais nada.
Despenteia os cabelos e sorri-me,
minha alta e constante namorada.

Seja a vida serena ou seja inquieta,
sempre na vida cabe um grande amor.
Eu sou o que o teu sonho em mim projecta.
Tu és o aroma com que se completa
o meu sonho impossível de ser flor.
Seja a vida serena ou seja inquieta,
sempre na vida cabe um grande amor.

Despenteia os cabelos e aproxima
a tua face límpida da minha.
Um mesmo pensamento nos anima.
Movem-nos iguais ódios e igual estima.
O meu desejo o teu o adivinha.
Despenteia os cabelos e aproxima
a tua face límpida da minha.

Só tu és para mim consolação
de tanto desalento que sofri.
Cada mão tua em cada minha mão
torne em luz toda a minha confusão
e toda a luz em só te ver a ti.
Só tu és para mim consolação
de tanto desalento que sofri.

Despenteia os cabelos e sorri-me,
minha alta e constante namorada.
Embora talvez isso seja um crime
enquanto o mundo mau se não redime,
agora quero não pensar mais nada.
Despenteia os cabelos e sorri-me,
minha alta e constante namorada.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
In "Cerejas-Poemas de amor de autores Portugueses contemporâneos-
(Gonçalo Salgado e Maria João Fernandes)

Manoel de Andrade


O MARINHEIRO E O SEU BARCO

(Para Daniela)


Lembro-me de um tempo imenso,
de um menino de espumas e areia
do mar que tive em minha infância.
Depois a vida cresceu dentro de mim,
as tardes me acostumaram com os barcos partindo
e no meu pequeno peito nasceu um sonho de marinheiro.

Recordo que em mim tudo era barco
e que a existência chamava-me de todos os portos do mundo.
Recordo meus salgados olhos tatuados com invisíveis rotas
navegando errantes sobre o horizonte.

Sim, há coisas tristes na vida
como um sonho de criança
quando morre em nosso coração de homem.
E hoje,
quando vejo minha pátria naufragada
e meu povo reconstruir com sangue
seu barco despedaçado,
sinto que em mim renasce transformado
o mesmo sonho antigo;
então meu coração se banha com as águas amargas desses anos
e penso naquele transparente canto de pérolas e algas
que herdei de ondas remotas
em tudo que em mim ficou de verde e de imenso;
e sonho novamente com um visionário caminho para a vida,
com seus barcos de pão e de peixes
com gaivotas jovens
e sua brancura abrindo-se com o amanhecer.

E penso o meu tempo
com seus caminhos longos e difíceis
e o sinto com a esperança das águas nas nascentes
e seu deslumbramento da desembocadura.
E mais além
penso em um oceano com novas longitudes,
em uma bússola de estrelas
guiando meu povo a uma aurora boreal.
E penso nesses povos antigos
que partiram um dia em busca de uma terra longínqua,
em busca de novos campos para suas sementes
e de um berço de sol para seus filhos.

Ah irmãos!
quantos mares desconhecidos nos esperam!
Quantos caminhos até chegar à nossa sonhada Canaã!

Sim... há coisas belas na vida...
como o homem com seu barco e seu destino
como a alma extraordinária dos camaradas
a ternura escondida em seus punhos
e seus gestos de vida e de amor.
E penso nesse porto ainda distante
no trigo maduro
na doçura das laranjas na próxima estação.
Penso em uma iluminada manhã
quando voltar a pisar o chão da pátria
e abraçar minha filha bem amada.

Manoel de Andrade
In "Poemas para a Liberdade"