segunda-feira, 5 de abril de 2010

domingo, 4 de abril de 2010

Manuel da Fonseca


DONA ABASTANÇA

«A caridade é amor»
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.

Família necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«Dar a todos não se pode.»

Já se deixa ver
Que não pode ser
Quem
O que tem
Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela dá ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres dá uns cobres
Ele incansável lá vai
Com o que tira a quem não tem
Fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver
Que não pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
De tão estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.

Manuel da Fonseca

in "Poemas para Adriano"

Dona Abastança de Manuel da Fonseca.

Mário Viegas / Manuel da Fonseca

Adolfo Casais Monteiro


Pregão de Revolta


Escravos!
chegou o tempo de acabar
as canções de declínio!
Que se apaguem
os ecos das sujeições e dos receios
pois já os braços se erguem
sem medo das queimaduras!
Dor, aniquilamento, vozes de desânimo,
tudo isso,
mas nunca orar de mãos postas
ante as imagens grosseiras
da nossa própria cobardia!

Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)

Carlos Queirós


CONCEITO


Na taça o vinho que espumando
Tanto parece
Leva-se à boca… e é já metade.
- Assim o amor sonhamos, quando
Nos amanhece
A realidade.

Carlos Queirós

Adriano canta Manuel da Fonseca...