sexta-feira, 2 de abril de 2010

Miguel Hernández


Menos teu Ventre

Menos teu ventre,
tudo é confuso.
Menos teu ventre,
tudo é futuro
fugaz, passado
baldio, turvo.
Menos teu ventre,
tudo é oculto.
Menos teu ventre,
tudo inseguro,
tudo já último
um pó sem mundo.
Menos teu ventre
tudo é escuro.
Menos teu ventre
claro e profundo.

Miguel Hernández
(Orihuela,Alicante,1910-1942)

José Gomes Ferreira


Álbum/XII

Todos nascemos nus
– condição dos vermes,
dos punhais
e da luz.

Os filhos só têm a mais
o terror das diferenças
das mães a vesti-los com os braços
-destinos feios
de mijo a chorar nas rendas
e violinos em trapos.

Todos nascemos nus
-condição dos seios,
das açucenas
e dos sapos.

Mas até os seios das mães
São diferentes.
Uns cheiram a sedas quentes
Outros, a urina de cães.

Bem. Agora devia sofrer
Cuspir nos espelhos
Dos remorsos.
E esbofetear o céu
Com gritos de mãos de ossos.

Mas não. Sorrio.
Todos nascemos nus
-condição dos mortos
despidos pelo frio

José Gomes Ferreira
(Porto, 1900-1985)

Maria do Rosário Pedreira


MÃE,EU QUERO IR-ME EMBORA

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.


Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.


Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.


Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira
(O Canto do Vento nos Ciprestes,2001)

Ana Luísa Amaral


Silogismos


A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

(Imagias,2002)

Fernando Assis Pacheco

Fernando Assis Pacheco

PRESO POLÍTICO

1

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite são iguais por dentro.
Não há papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce,e cresce a voz armada
descendo pelos muros tão tranquila;
tão tranquila que já não desespera
de ser apenas voz,não uma guerra.

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha:
Não há papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos,mão estendida
por sobre muros só de medo e pedra.

2

Quando saíres amigo,não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que farás da liberdade:
quando saíres amigo não me esqueças.

Quero mais fazimento que promessas.
São de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade.
Não me esqueças amigo,não me esqueças.

1966
(Lote de Salvador,1991)

Ruy Belo


VESTIGIA DEI


És tu quem perseguimos pelos lábios
e tens em equilíbrio os seres e o tempo
És tu quem está nos começos do mar
e as nossas palavras vão molhar-te os pés
Tu tens na tua mão as rédeas dos caminhos
descem do teu olhar as mais nobres cidades
onde nasceram os primeiros homens
e onde os últimos desejarão talvez morrer


Tu és maior que esta alegria de haver rios
e árvores ou ruas donde serem vistos
Por ti é que aceitamos a manhã
sacrificada aos vidros das janelas
aceitamos por ti o sol ou a neblina
que faz dos candeeiros sentinelas
É para ti que os pensamentos se orientam
e se dirigem os passos transviados
e o vento que nos veste nas esquinas


És sempre como aquele que encontramos
diariamente pela rua fora
e a pouco e pouco vemos onde mora
Só tu é que nos faltas quando reparamos
que os papéis nos vão envelhecendo
e os dias um por um morrendo em nossas mãos
És tu que vens com todos os versos
És tu quem pressentimos na chuva adivinhada
quando os olhos ainda se nos fecham
embora o sono nunca mais seja possível
É tua a face oposta a todas as manhãs
onde o tempo levanta ombros de espuma
que deixam fundas rugas pelas faces


Os céus contam contigo é para teu repouso
a terra combalida e sem caminhos
Ser indecomponível teu corpo foi maior
que vítimas e oblações. Quando tu vens
a solidão cai leve como a flor do lírio
e as aves nos pauis levantam voo
e há orvalho em teus primeiros pés


Não assistisses tu a esta nossa vida
caíssem-nos os gestos ou quebrados ou dispersos
e nenhum rosto decisivo um dia fecharia
todas as palavras com que dissemos os versos

(Aquele Grande Rio Eufrates,1961)