sábado, 27 de março de 2010

Iuri Gagarin morreu a 27 de Março de 1968


Nos anos 60 tinha muitos "heróis" de entre eles...Eusébio da Silva Ferreira e Iuri Gagarin...

sexta-feira, 26 de março de 2010

Nicolas Guillen

Nicolas Guillen

José Gomes Ferreira


Poema

Um dia saberás que nasceste como eu
com a solidão nos olhos
atados na luz
a gritar no pesadelo de uma ilha.

E a ver a morte crescer lentamente
no teu corpo
- viva.

José Gomes Ferreira,"Poesia IV"

quarta-feira, 24 de março de 2010

José Gomes Ferreira


TU,PIEDADE


Tu, piedade,
que vens lá do fundo
da raiz do instinto
e és capaz de incendiar o mundo
para aquecer um faminto.

Tu que me embalas
com a voz rouca
da cólera do amor
que deixa na boca
o frio das balas
e todo o amargor
da outra sede
que só se sufoca
com pus e suor
- e os dedos sangrentos
na cal da parede
dos fuzilamentos.

Tu que me afagas
como quem estrangula
com mãos de bandido...
E beijas as chagas
com lábios de gula
e chumbo derretido.

Tu que só amas
a dor com esgares,
nos gritos das chamas,
nas cordas dos potros,
na cruz do Rabi
- para assim chorares,
através dos outros,
o que dói em ti.

Tu que me levas
de rastos na estrada
ao fundo da rampa
onde só há trevas
- raiz misturada
de estrelas e trampa.

Tu que descobres
toda a secura
de cinzas nos frutos
que há na ternura
de chorar os pobres
de olhos enxutos.

Tu, piedade,
mãe de todas as mães
e de todos os vícios,
que lambes como os cães
os vergões dos cilícios.

Dá-me lágrimas reais
na cara a correr
como se a pele sangrasse...
Dessas que deixam sinais
e fazem doer
por dentro da face.

Dá-me lágrimas geladas
como dedos nos gatilhos
em noites de lobos...
Que eu quero baptizar com elas
todos os filhos
da fúria das cadelas,
dos réprobos e das ladras,
de estupros e de roubos.

Dá-me o ódio frio
que vem lá do fundo
do bafio das prisões
- ódio que há-de salvar o mundo,
num dia de lágrimas nos olhos,
quentes como corações.


José Gomes Ferreira, 1945 - "Poesia III",1961

Pablo Neruda


TALVEZ TENHAMOS TEMPO


Talvez tenhamos tempo ainda
para ser e para ser justos.
De uma maneira transitória
agonizou ontem a verdade
e embora o saiba todo o mundo
todo o mundo bem o disfarça:
ninguém mandou algumas flores:
ela morreu e ninguém chora.

Entre o esquecimento e a aflição
um pouco antes do funeral
teremos a oportunidade
da nossa morte e nossa vida
para sair de rua em rua,
de mar em mar, de porto em porto,
de cordilheira em cordilheira,
e sobretudo de homem em homem,
e perguntar se a assassinámos
ou se a mataram os outros,
se foram os nossos inimigos
ou o nosso amor o assassino.
Porque a verdade já morreu
e agora podemos nós ser justos.

Antes devíamos lutar
com armas de calibre escuro
e por ferir-nos esquecemos
qual era o fim da nossa luta.

Nunca se soube de quem era
o sangue que nos envolvia,
acusamos outros sem cessar,
sem cessar fomos acusados,
eles sofreram e sofremos,
e depois de eles terem ganho
e termos ganho nós também
a verdade tinha morrido
de antiguidade ou violência.
Não há nada a fazer agora:
todos perdemos a batalha.

Por isso penso que talvez
por fim pudéssemos ser justos
ou por fim pudéssemos ser:
temos este último minuto
e depois mil anos de glória
para não ser e não voltar.

Pablo Neruda,"Memorial de la Isla Negra",1964
(tradução: José Bento)

Miguel Torga


NÃO TENHO CERTEZAS

Não,não tenho certezas.
Se era esse encanto que vos atraía,
Deixai-me só nesta melancolia
De baixo,aberto e liso descampado.
Quero viver,quero morrer,e quero
Que ao fim a soma seja um grande zero
Do tamanho da ardósia...e apagado

Mas são desejos da fisiologia...
Vagas aspirações do dia-a-dia
Duma bilha de barro
Que não vale o cigarro
Que se fuma.
Não,não tenho certezas;
Tenho bruma.

Miguel Torga
(S.Martinho de Anta,1 de Outubro de 1949)