sábado, 13 de março de 2010

Hazmat Modine "Yesterdey Morning"

Léo Ferré - Quartier Latin -

António Botto


Poema

Conversando a sós contigo,
Desfruto o prazer imenso
De não pensar no que digo
E de dizer o que penso.

E mais uma vez
Afirmo
Sem receio de que seja desmentido:
-A maior felicidade
É ser-se compreendido.

António Botto
(As canções de António Botto)

António Botto


Poema


A Fatalidade,
Várias vezes,
No meu caminho aparece;
Mas,
Não consegue perturbar
A minha serenidade.

Somente,
No meu olhar,
Poisa e fica mais tristeza.
Não me revolto,
Nem desespero.

-Quero morrer em beleza.

António Botto
(As canções de António Botto)

Eugénio de Andrade


CANÇÃO BREVE


Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade



Retrato

No teu rosto começa a madrugada.
Luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.

Melodia
distante mas segura;
irrompendo da terra,
quente, madura.

Mar imenso,
praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma!

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade


OUTRA CANÇÃO

Com as quatro folhas
dos trevos do verão
farei uma casa
sem portas sem janela
para te esconder,
farei um rio
de sombra onde dormir
contigo nos olhos
para não morrer.

Eugénio de Andrade.