sábado, 30 de janeiro de 2010

Che por Sofia.


Che Guevara

Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

Porque a SIDA existe...

BELLA CIAO

Federico Garcia Lorca - Leonard Cohen.

Clip Ditadura -Cálice-Chico Buarque.

António Gedeão.


(Foto Fel de Cão)

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes,
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão.

Miguel Torga


(Foto Fel de Cão)
Borralho

Vou aquecendo os sonhos à lareira,

Sem reparar nas cinzas do brasido.

Ou olho-as distraído,

Na baça inconsciência

De que são a verónica da morte.

Sentado na cadeira habitual,

Diligência irreal

Que atravessa, morosa, a noite fria,

De mim próprio alheado,

Dou concreto calor à fantasia

Como se o lume fosse imaginado.

Miguel Torga
(S.Martinho de Anta,30 de Dezembro de 1960)