sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Poema.


Eu

Sou a que no mundo anda perdida
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada, a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte;
Alma de luto sempre incompreendida!

Sou aquela que passa e ninguém vê.....
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Poema.


Homens:na noite do desânimo.


Homens: na noite do desânimo
levanto a minha voz
para pregar o ódio.

Um ódio total e violento
a todos os narcóticos
que adormecem a realidade
com neblinas de música.

Ódio às lágrimas mal choradas diante dos poentes,
à alegria das crianças mortas que teimam em rir nos olhos dos velhos,
às noites de insónia por causa de uma mulher,
às flores que iluminam os mortos de alma,
ao álcool da arte-pura-para-esquecer,
aos versos por dentro das palavras,
aos versos com túneis acesos por dentro das palavras,
aos pássaros a cantarem os perfumes das árvores secas,
às valsas com voos de tule
- e até ao sol
que diminui o mundo
em indiferença de continuar.

Ódio ao mar a modelar deuses
nos nossos corpos feios de tanto se julgarem belos.

Ódio à primavera
- essa mulher voadora
que entra pelas janelas
com asas azuis
para que a nossa dor
pareça preguiça de existir.

Ódio às serenatas que o luar faz do céu à terra,
às pétalas nos cabelos dos fantasmas ao vento,
às mãos-dadas nas sendas brancas dos idílios,
à pele de frio doce dos amantes,
aos colos das mães a embalarem futuro,
às crianças com céus do tamanho dos olhos,
às cartas de paixão a prometerem suicídios (para beijos mais fundos),
às insinuações de paraíso nas vozes de pedir esmola,
às escadas de corda nos olhos das noivas das trapeiras,
às danças a perfumarem de sexo a derrota,
às ninfas disfarçadas em canteiros de jardins,
e aos recantos foscos
onde escondemos a Verdade
em galerias de evasão
- só para que os nossos olhos continuem límpidos
a ignorarem todos os negrumes
com escadas até ao centro da terra.

Ódio ao disfarce, às máscaras, ao «falemos noutra coisa»,
aos desvios, às fontes dos claustros, ao «vamos logo ao cinema»,
aos problemas de xadrez, aos dramas de ciúme, às infantas do fogo das lareiras,
e aos que não têm a coragem
de estacar, pálidos,
com unhas na carne
a olhar de frente,
sem arrancar os olhos,
os caminhos dos mortos sagrados
até aos horizontes onde os homens se ofuscam das manhãs virgens.

Ódio a todas as fugas, a todos os véus,
a todas as aceitações, a todas as morfinas,
a todas as mãos ocas das prostitutas,
a todas as mulheres nuas em coxins de afagos,
para nos obrigarem a esquecer...

Mas eu não quero esquecer, ouviram?
Não quero esquecer!

Quero lembrar-me sempre, sempre e sempre
deste minuto de abismo,
para transmiti-lo de alma em alma,
de treva em treva,
de corvo em corvo,
de escarpa em escarpa,
de esqueleto em esqueleto,
de forca em forca,
até ao Ranger do Grande Dia
para a Salvação do Mundo
sem anjos
nem demónios
- mas só homens e Terra.

José Gomes Ferreira

Poema.


Trovas Geneológicas


Minha avó era uma pulga
minha mãe era um sardão.
Sou neto dum corno velho
(não há pulga sem senão).

Nascemos intempestivos
dum coito de ideias tolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas.

Arre lagarto lagarto
lagarta da geração
mais vale morrer de parto
que nascer de inspiração.

Nascemos intempestivos
duma réstia de cebolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas

De sete primos que tinha
quatro são peixes da horta
dois peixes da ribeirinha
e um peixe de retorta.

Peixe espada peixe cama
avó pescada do alto
titicaca citirama
paisagem de pó de talco.

Nascemos intempestivos
do rolo das pianolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas

Jesu jesu que não posso
dar passada no passado
sem que tropece no osso
de algum avô desusado.

Ossos que dançam o tango
caveiras valsificadas
orangonassaugotango
esgotado de almas panadas.

Nascemos intempestivos
do tango das castanholas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas

Tíbias peróneos famílias
Rotuladas titulares
chi de burro chá de tília
esqueletos protocolares.

Sentimentos sedimentos
sacramentos sedativos
alimentos excrementos
mas nunca preservativos.

Nascemos intempestivos
duma união de santolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas.

Jesu jesu que pecado
impedir a criancinha
de passar um mau bocado
quando sair da bainha
Jesu jesu que pecado
pôr o ovo na sentina.

Nascemos rebarbativos
dum coito de ideias tolas
estamos vivos estamos vivos
fomos feitos em ceroulas.

Nascemos intempestades
dum parto de ideias falsas.
Somos homens na verdade
assim o provam as calças.

Ary dos Santos

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Golpe de Estado nas Honduras.


Na XIX Cimeira Ibero-Americana de Lisboa foi hoje, envergonhada e tristemente, condenado o golpe de Estado nas Honduras que derrubou o, democraticamente eleito,presidente José Manuel Zelaya. Claro que o Obama (em quem nunca confiei, não confio e nunca confiarei) já veio aprovar o novo fantoche. A liberdade continua banida da América do Sul e Central...O povo vai continuar na miséria perante o esquecimento de tudo e de todos.

1º de Dezembro...


Hino da Restauração (1640)

Portugueses celebremos
O dia da Redenção
Em que valentes guerreiros
Nos deram livre a Nação.

A Fé dos Campos de Ourique
Coragem deu e valor
Aos famosos de Quarenta
Que lutaram com ardor.

P'rá frente! P'rá frente!
Repetir saberemos
As proezas portuguesas.

Ávante! Ávante!
É voz que soará triunfal
Vá ávante mocidade de Portugal!
Vá ávante mocidade de Portugal!

Edith Piaf - La Vie En Rose

Woody Allen nasceu a 1 de Dezembro de 1935.