quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Rafael Bordalo Pinheiro.


Poesia


Gin sem tónica



Uma garrafa de gin

estava a preocupar

o pescador

a garoupa e o rodovalho

não tinham aparecido

pró jantar

que fazer?

telefonou ao ministro

da Pesca e do trabalho

mas o ministro

estava a trabalhar

na cama

com a mulher

foi então

que a garrafa de gin

sugeriu discretamente

porque não

telefonar ao presidente?

telefonaram

o presidente da nação

estava em acção

na cama

com a mulher

nessa altura

até que enfim

encontraram a solução

o pescador

foi para a cama

com a garrafa de gin



Mário-Henrique Leiria, in

"Contos do Gin-Tonic", Ed. Estampa, 1973

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Friedrich Nietzsche morreu a 25 de Agosto de 1900.


Sabedoria do Mundo

Não fiques em terreno plano.
Não subas muito alto.
O mais belo olhar sobre o mundo
Está a meia encosta.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Poema



BLOG

Mantivera no fim da adolescência
aquilo a que chamava simplesmente
o seu diário íntimo:
páginas manuscritas onde ardiam
rastilhos de mil sonhos que rasgavam
as mordaças da angústia social,
a timidez tão própria da idade.

Nessa caligrafia cuja cor
fora ainda a do sangue
colheu a energia necessária
pra atravessar como um sonâmbulo
o ordálio daquela juventude,
o seu incandescente calendário
de amizades vorazes, tão velozes
como os amores que julgava eternos
e outras feridas mal cauterizadas.

Hoje quase não volta a essas páginas:
estamos no século XXI
e em vez do diário de outros tempos
mantém agora um blog
onde todos os dias extravasa
recados, atitudes, confissões,
coisas no fundo tão inofensivas
como o fogo que outrora lhe acendia
as frases lancinantes
— embora hoje em dia quando escreve
tenha por um momento a ilusão
de que as suas palavras continuam
a propagar ainda o mesmo vírus,
e a alimentar, quem sabe, os mesmos
sonhos
sempre que alguém desconhecido as ler
como quem só assim escutasse
um segredo na noite do mundo.

Mas, apesar de todo o entusiasmo
que o mantém acordado por noites sem fim,
ele adivinha que também virá
um dia a abandonar sem saber como
o seu actual vício solitário
e dentro de alguns anos, ao reler
as frases arquivadas no computador,
talvez tudo isso lhe pareça então
fruto de gestos tão adolescentes
como os que antigamente preenchiam
esses cadernos amarelecidos
e hoje sepultados para sempre
em esquecidas gavetas de outro século.

(Fernando Pinto do Amaral)